Lou Reed e a sua vida de constante montanha-russa passam do abismo ao céu num ápice. Mas havia novos loopings no horizonte.
O momento era difícil – Lou Reed estava deprimido pelo seu Berlin ter sido incompreendido e mal-tratado pela crítica. Lançou-se inclusivamente a ideia de que a obra prima Transformer só o era por causa da participação de David Bowie. A sua dependência de drogas e álcool agudizou-se. Divorciou-se de Bettye Kronstad, com quem tinha casado apenas uns meses antes. Despediu a banda que o ia acompanhar em tour e arranjou outra, dias antes do arranque da mesma. O descalabro era evidente. Até que um tal Steve Katz, irmão do seu agente resolveu lançar-lhe uma potencial bóia de salvação – juntar uma banda a sério e lançar um álbum ao vivo com músicas dos Velvet Underground.
Gravado em dezembro de 1973 no Howard Stein’s Academy of Music, em Nova Iorque, com a tal banda de apoio composta por músicos talentosos (destaque para as guitarras de Steve Hunter e Dick Wagner), Rock ‘n’ Roll Animal é considerado uma das representações mais poderosas da fase solo de Reed, após a sua saída dos Velvet Underground. Contém apenas cinco faixas, quatro delas reinterpretações ousadas de canções dos Velvet, “Sweet Jane”, “Heroin”, “White Light/White Heat” e “Rock n’ Roll”. A qualidade inovadora do disco está sobretudo na estrutura das músicas, que ganharam novos arranjos e solos de guitarra intensos, responsáveis por dar uma cara mais rock progressivo ao trabalho, algo relativamente inédito para Reed, que soube estar à altura da tarefa, de mostrar a fibra que tinha dentro dele quando estava em cima de um palco. Longe das confusões, dos excessos, ali estava ele a dar o seu corpo e a sua alma ao seu deus – o rock n’ roll.
A introdução instrumental, criada por Steve Hunter eleva “Sweet Jane” a um novo patamar, transformando o que era uma peça de rock em algo próximo a uma sinfonia de guitarra. Essa abordagem agressiva e empolgante contrasta com o estilo mais cru e direto dos Velvet Underground e também por isso surpreendeu o público. “Heroin”, a portentosa canção sobre essa puta dessa droga chega aqui aos treze minutos de pura apoteose.
Rock ‘n’ Roll Animal é um dos discos mais recordados na carreira de Reed e um exemplo de como a música ao vivo permite capturar a essência de um artista. A sua recepção positiva pelo público e pela crítica garantiu o seu lugar como um dos álbuns ao vivo mais emblemáticos do rock, inspirando gerações de músicos e reafirmando a habilidade de Lou Reed de reinventar o seu próprio legado. Sabemos hoje que foi sol de pouca dura, daí para a frente foram poucos os trabalhos de Lewis Allan Reed que ficaram na retina, mas tudo fez parte da montanha russa que foi a sua vida.