Isto é 1962 e estamos à porta do Cavern Club. Uma porta completamente descaracterizada, sem indicações, onde se forma uma pequena fila, lançando a curiosidade nos passantes. Começa a chover, mesmo típico de Liverpool. Carimbam-nos o pulso à entrada, desviamos uma cortina de veludo para nos depararmos com uma escada, descemos os cinco, seis degraus e chegamos a uma enevoada sala para não mais de 100 pessoas, palco ao fundo, instrumentos preparados.
Isto é 1961 e estamos no The Gaslight Cafe, em Greenwich Village, a assistir a um rapaz com a sua guitarra, qual Llewyn Davis. A névoa já se dissipou um pouco, e agora Caio está a colorir a atmosfera com a sua voz e simpatia, o público quase sempre em silêncio a deixá-lo mostrar-se, respeitando a introspeção das canções.
Isto é 2010 e estamos no NOS Alive, 8 de Julho, palco secundário. Os Drums sobem ao mesmo cheios de energia, não estão para muita conversa porque o tempo é curto e querem dar tudo, mostrar as suas músicas recentemente lançadas e também algumas mais antigas. Conseguem por a mexer todo o público, mesmo os curiosos que por ali pairavam, sem os conhecer.
Isto é 2024 e tudo o que descrevi em cima aconteceu numa só noite, a de 25 Outubro, na Sala Lisa. Os Hause Plants vieram apresentar o seu recente EP (não) sou de cá, desta feita cantado em português. É o quinto EP da banda, criada por Guilherme Machado Correia no seu quarto em Janeiro de 2020, e que foi ganhando corpo com a entrada dos restantes membros e à base de digressões feitas em pequenas salas dos EUA e Europa. Um pouco à la Beatles, foi nessas salas das Hamburgos de hoje que a banda se foi fazendo, criando música nova e testando logo ali. Entretanto, no inicio deste ano passaram a usufruir também da experiência da editora Cuca Monga no seu processo de concepção de música.

Confesso que parti para o concerto com uma pergunta debaixo da asa – porque raio faz uma banda cinco EP’s em três anos em vez de um álbum? No final do concerto, e depois de matutar no tema enquanto vos escrevo, aceitei a evidência de que nem todos têm de seguir o modelo vigente, os tempos são outros, ou ouvintes são outros. O teste do algodão estava à minha frente, os Hause Plants deram um concerto muito bem oleado, animado, pujante, fruto da sua experiência de palco e da diversidade de experiências que daí advêm. Não têm um álbum, mas têm boas canções, em inglês e em português, que nos fazem sentir estar algures na década do auge indie rock.
Isto é 2024, e os Hause Plants são uma das bandas portuguesas a ter em conta no panorama nacional. Experimentem e verão.
Fotografias: Rafaela do Valle











