Apesar do nome, Inóspita, o projecto puramente instrumental da guitarrista Inês Matos chama-nos para junto de si.
Há alguma coisa mais cool do que uma garota e uma guitarra? Bem, talvez só uma garota e um baixo (as Kims, Deal e Gordon marcaram-nos para sempre). Bom, adiante.
Demos por Inóspita, o nome artístico pelo qual responde Inês Matos, em 2023, quanto tivemos a oportunidade de a ver em palco, no Bota, em Lisboa. Daí ficaram boas sensações, reforçadas agora com a edição do seu segundo disco (o primeiro, Porto Santo, é de 2022).
Chega-nos agora o novo tomo do percurso desta jovem, nascida e criada em Lisboa mas cuja guitarra eléctrica a leva e nos leva por viagens que valem a pena. E nós, Inóspita? não é uma grande quebra face ao registo anterior, e de certa forma ainda bem. O que temos, em nove músicas e pouco mais de 36 minutos, é Inês e a sua guitarra, sozinhas, desenhando paisagens sonoras bonitas e interessantes, em que não existe um “formato canção” propriamente dito mas sem que tal a faça cair em abstrações demasiado rebuscadas.
Apesar de ter estudado no Hot Clube, o jazz não manda aqui. Talvez pela sua experiência enquanto guitarrista de projectos na área do rock – como Chinaskee (co-produtor deste disco), Primeira Dama ou João Borsch – essa é a sensibilidade de base que mais passa. Mas este é um feeling mais emocional do que concreto. O ritmo nunca é elevado, nunca é apressado nem avassalador, e muito menos preso a ritmos quatro por quatro.
A linguagem de Inóspita é a exploração melódica (e a palavra-chave é esta, melódica), como se ela fosse contruindo os temas à medida que os grava. O que fica é um registo bonito, hipnótico, em que a guitarra é rainha e senhora, com voz e outros instrumentos a aparecerem, timidamente, mais para o final do disco.
Os três últimos temas, aliás, distinguem-se dos restantes. “Musa Ausente” permite-nos ouvir a voz falada de Inês por entre uma colagem sonora; “E Nós”, agora sim, traz o jazz à conversa, com a ajuda de mais músicos; e o fecho, em beleza, faz-se com a única cover do álbum, nada mais nada menos que “Só”, do grande Jorge Palma, aqui numa versão surpreendente e iluminada por uma guitarra límpida e refrescante (que só se suja com o fuzz mesmo no final).
Depois de Eugénia Contente e o seu trio, que conseguiu lugar interessante no nosso top de discos nacionais de 2023, mais uma jovem guitarrista portuguesa firma o seu nome na nossa cena. Embarque sem receios nesta espécie de meditação sónica, à confiança.