Voltar a Sugar é sempre um acontecimento. Um clássico do jazz que deveria ser ainda mais clássico do que é. Sem falhas, só doçura e encantamento.
Stanley Turrentine é muitas vezes esquecido (ou quase) na lista da longa esteira de fina linhagem dos saxofonistas do jazz. Imerecido, pois então. E muito. O seu estilo particular de tocar o seu instrumento de sopro talvez tivesse sido influenciado pelo blues, tornando-se denso, ondulado e repleto de espírito vivo e fresco. Depois de ter gravado inúmeros álbuns para a mítica Blue Note durante a década de 60 (a estreia deu-se com Look Out!, a dezoito de junho de 1960 e o ponto final desse caminho aconteceu com Another Story, a três de março de 69), mudou-se para a etiqueta de Creed Taylor, a importante (embora um pouco menos mítica) CTI. Recentemente divorciado, Turrentine não mudou apenas os amores carnais, transferindo o seu estilo para uma vertente mais fusion, que passou a ser moda nos finais dos anos sessenta e princípio da década seguinte. A sua estreia açucarada deu-se com Sugar, disco histórico muito bem recebido, tanto pela crítica como pelo público aficionado do jazz em geral.
Este é um disco cheio de groove! Tudo aqui é charme, estilo, vitalidade e talento. Se o saxofone de Turrentine marca a diferença pelos fraseados arrastados, vigorosos e enérgicos, o que dizer, por exemplo, da guitarra de George Benson, maravilhosamente swingante? Ou das teclas orgânicas e elétricas de Butch Cornell e Lonnie L. Smith Jr? Como se não bastasse, juntam-se à festa Ron Carter (baixo) e os sopros de Freddie Hubbard, tocador incansável em tantos e tantos discos de jazz. Originalmente gravado com apenas três composições (“Sugar”, de Stanley Turrentine, “Sunshine Alley”, de Butch Cornell e “Impressions”, de Coltrane), este disco de início da década de 70 é um clássico absoluto, pelo menos para mim, e para a minha particular maneira de ouvir e de me deliciar com o jazz. O seu som funky groove é perfeitamente irresistível, e Sugar tem ainda a vantagem de bem dispor qualquer ouvinte de mente aberta. Faz-me bem, deixa-me satisfeito com a vida, o que não é coisa pouca. Lançado, como referimos anteriormente, pela CTI Records, Sugar tem mais um outro grande motivo de interesse: a sua capa. Para muitos, ela é de uma sexualidade evidente, mas enganam-se os que assim pensam. A explicação justifica-se, e é simples. Pete Turner, responsável por várias capas de discos da CTI, havia feito, 10 anos antes, uma série de fotos para a revista Look intitulada Black Is Beautiful. Uma dessas fotos serviu como capa de Sugar, e mais não retrata do que uma mãe a lamber a ponta do pé do seu pequeno bebé. Nada de sexual, como se vê. Lindíssima, toda ela afeto e amor, dos pés à cabeça.
A edição em vinil que muito recentemente me veio parar às mãos, depois de anos e anos de incessante procura, foi editada pela Pure Pleasure. O formato gatefold dessa edição de abril de 2009, oferece um som soberbo e vem com os cento e oitenta gramas costumeiros. Para mais, foi-lhe acrescentado o tema “Gibraltar”, de Freddie Hubbard, que traz à rodela negra mais nove minutos e meio de festa, em que um certo travo a samba vai-se rebolando perante os nossos ouvidos de maneira irresistivelmente mágica. É uma excelente forma de terminar Sugar, mesmo sabendo que lhe retira a sua originalidade formal de dois temas no Lado A (“Sugar” e “Sunshine Alley”), e apenas “Impressions” na outra face do disco. Como não somos assim tão puristas, gostamos de ter o imenso charme de “Gibraltar” por perto.
Não deixe de se inebriar pelos mais clássicos discos de jazz de sempre, mas experimente Sugar, que verá não ter sido tempo perdido. Muito longe disso, até. Este Sugar não engana. Nunca enganou. É de confiança.
* este texto tem excertos de um outro artigo publicado aqui no Altamont, agora expandido para uma melhor apreciação do álbum em questão.