Um concerto cheio de histórias, que percorreu a carreira de dois dos mais relevantes e produtivos músicos nacionais.
Há quem defenda que a música feita em Portugal e, sobretudo, aquela cantada em português, nunca esteve tão bem, com tantos e tão variados artistas a produzirem um número muito respeitável de canções por ano. Dito isto, é pouco provável que se encontre um fã da produção musical lusa que não aprecie a música de Samuel Úria, ou de Benjamim, ou até mesmo de ambos. É fácil encontrar paralelos entre as obras de Samuel Úria e de Luís Nunes: apesar de pertencerem a gerações ligeiramente desfasadas, vão beber às mesmas fontes de inspiração, como os cantores de intervenção ou os clássicos do rock, ambos fizeram a maior parte da sua carreira a solo, e, sobretudo, ambos têm um talento pouco comum para escrever canções e para manobrar a língua portuguesa, tornando-a a personagem principal da música. Não é, portanto, de admirar, que estes dois amigos, Samuel e Luís (sim porque para além de partilharem público consta que também partilham uma bonita amizade), tenham começado a colaborar e a tocar juntos.
O primeiro aparecimento formal deste duo terá sido no projeto “Conta-me uma canção”, primeiro em vídeo, ainda em 2022, e depois num concerto no Teatro Maria Matos, em janeiro de 2023. Desde então, lançaram juntos “Os Raros”, canção de Benjamim com letra de Samuel e que ambos interpretam, e tocaram no festival Chefs on Fire, no Estoril, em setembro deste ano. Ainda assim, e apesar de 2023 ter sido um ano atarefado para aquele que já é considerado um dos mais valiosos supergrupos da nossa praça, todas estas aventuras não passaram de ensaios para o belíssimo concerto que prepararam para mostrar no Teatro Tivoli, em Lisboa, e no Teatro Sá da Bandeira, no Porto.

Foi um serão cheio de histórias, que não só iam construindo o concerto, como também traçavam a linha temporal da amizade daqueles dois cavalheiros. Subindo as escadas junto à plateia, cada um com a sua guitarra, e com fatos a condizer, começaram o concerto em frente às sóbrias cortinas do palco, só eles, duas guitarras e dois microfones, em modo Benjamim Simon e Samuel Garfunkel. A história de como se conheceram graças a B fachada, outro dos grandes, que mostrou a Benjamim a canção “Barbarella e Barba Rala”, de Samuel Úria, naquele tempo ainda no seu MySpace, abriu as hostilidades. A esta juntaram-se as também acústicas “Disparar” e “O Sangue”, de Benjamim. Com a abertura das cortinas, revelando um palco mais elétrico, com grandes holofotes, guitarras, um baixo, loopers e outros engenhos para que as canções soassem mais cheias do que soariam se estivessem realmente só os dois a tocar, vieram mais histórias, entrecortadas, claro está, por interpretações das canções de ambos. “Estevão”, num raro aparecimento ao vivo, “Essa voz” e “A Contenção”, mantiveram-nos no repertório de Samuel até que “Dança Com os Tubarões”, do segundo disco de Benjamim, tomou conta da festa, sempre feita em dueto, com guitarras gémeas e bonitas harmonias. Já “Carga de Ombro”, de Sami, e “Domingo”, de Benjamim, foram as escolhidas para um pequeno interlúdio em que ambos, cada um na sua vez, se lançaram numa versão da música do colega, enquanto o outro se sentava a assistir, juntamente com o público, num misto de divertimento e comoção.

A história de como Benjamim conheceu Os Ortigões, banda de culto do Alentejo, e de como os mostrou a Samuel numa noite em Alvito bem regada a aguardente da Lourinhã e, claro, a história da canção “Os Raros”, o maior e único hit deste supergrupo e talvez a principal razão para aquele espetáculo se ter materializado fizeram o “momento Alvito” da noite, como lhe chamou Samuel. A versão que Benjamim fez de “Pés Quentes”, canção dos Ortigões que devemos procurar no Youtube e não no Spotify (indicação do especialista Benjamim), foi a última canção a ser tocada naquele palco. Tendo desaparecido na escuridão, naquele que parecia um fim muito precoce para um concerto que nos estava a saber tão bem, os dois músicos reapareceram num andar mais elevado do palco, que até então não estava visível devido a um muito bem conseguido jogo de luzes. Aqui encontrava-se um piano de cauda, instrumento indispensável nos concertos de Benjamim, e um harmónio, para Samuel poder também exibir os seus dotes com um teclado e tocar uma versão de “Crying”, original de Roy Orbinson, com uma letra sua, em português. Com Benjamim bem sentado no piano, o concerto continuou com várias versões de canções suas, que Samuel Úria ia acompanhando, ora só com a voz, a cantar encostado ao instrumento, ora com as suas costumeiras guitarras, ocupando o andar de baixo do palco. “Rosie”, “Vias de Extinção”, uma das melhores canções portuguesas da última década, como lhe chamou Samuel, e “Ângulo Morto”, conseguiram arrancar coros e acenos de cabeça contentes da plateia que ia perdendo a formalidade imposta pela sala. “Teimoso”, clássico absoluto de Samuel, interpretado usando uma palma do público do Tivoli que Benjamim gravou no seu sampler, “Fusão”, que fez descer bolas de espelhos do teto, e “É Preciso Que Eu Diminua”, de Samuel Úria, mas também a “pouco ecológica” “Volkswagen”, onde se fez uma alusão à Palestina com uma discreta, mas significativa troca na letra, “Madrugada” e “Incógnito”, de Benjamim, levaram-nos até ao fim do concerto, que já ia com duas horas. Depois dos devidos agradecimentos a todos o que tornaram aquele espetáculo possível, Benjamim e Samuel saíram de palco juntos e satisfeitos, mas não demoraram a regressar, chamados de volta por uma ovação de pé.

Foram não um, mas dois os encores com que nos presentearam os membros integrantes do “maior e mais alto superduo português”. “Terra Firme”, de Benjamim, “Lenço Enxuto”, de Samuel Úria – que soou lindíssima tocada por Benjamim ao piano – e ainda um bis de “Os Raros” encerraram a noite e despoletaram, mais uma vez, aplausos de pé. Foram cerca de 2h30 de concerto sem interrupções, mas, surpreendentemente (ou não), nem demos pelo tempo passar. As expectativas eram altas, mas a verdade é que a junção em palco de Samuel Úria e Benjamim, a quem já seria justo atribuir o estatuto de tesouros nacionais, foi verdadeiramente deliciosa. Foi um espetáculo pensado ao pormenor, desde o alinhamento ao design do palco, passando pelas luzes e pela indumentária, e cuidadosamente ensaiado, para que tudo corresse bem. Mesmo estando só os dois a tocar, a sala pareceu sempre cheia de música, de talento, de amizade e de carinho. Ainda a pensar no concerto, só nos resta esperar que não tenha sido uma one time thing (eles mesmos disseram que gostavam de repetir a experiência) e que possamos continuar a colher os frutos da energia simbiótica destes dois amigos e colegas de profissão.
Fotografias de Rui Gato













