Foi no último trimestre de 1973, cumprem-se agora 50 anos, que uns garotos de Sydney, Austrália, agarraram numas guitarras e começaram a ensaiar. Dessa primeira formação imberbe, já não resta ninguém na banda que o mundo veio a conhecer como AC/DC, um monólito de rock n roll que se recusa orgulhosamente a desaparecer. Esta é a sua história.
As origens
Ao leme estava Malcolm Young, de 21 anos, que, com o seu irmão Angus (dois anos mais novo), tinham sido criados numa rígida dieta de rock n roll norte-americano e inglês. Costuma dizer-se que os AC/DC são um negócio de família, e isso vai muito para além de Malcom e Angus. Para o perceber temos de recuar uns anos, ao final dos anos 60, quando George Young, um dos irmãos mais velhos, fez parte dos Easybeats, um grupo pop-rock que foi, durante algum tempo, a maior exportação musical australiana, atingindo o sucesso em Inglaterra. Quando os Easybeats terminaram, George e o seu parceiro de banda Harry Vanda voltaram para a Austrália e criaram uma empresa de produção, começando a arregimentar bandas que viriam a representar e a produzir, bem como para quem escreviam canções, com base na sua experiência e conhecimento do big time musical do momento.
Recuando ainda mais, as origens dos Young estão na Escócia, de onde a família origina. Mudaram-se para a Austrália quando os miúdos eram pequenos, e foi aí que a música começou a ganhar força a sério.
Em 1973, vendo o talento de Malcolm para a guitarra, o irmão George decidiu ajudar os esforços do garoto e começou a gerir a carreira de uma banda que ainda nem nome tinha. Angus Young, o guitarra solo que é a verdadeira cara dos AC/DC, entrou para o grupo poucas semanas depois, por convite de Malcolm. Estávamos no último trimestre de 1973. No início de 1974, já com o nome AC/DC estabelecido (sugestão da mulher de George) o quinteto (Malcolm e Angus nas guitarras, Dave Evans na voz, Colin Burgess na bateria e Larry Van Kriedt no baixo) já andavam a dar concertos, todos os que conseguiam, assentando o alinhamento sobretudo em covers de rock clássico, nomeadamente de Chuck Berry, Free ou Rolling Stones.
Aquilo que fica dessa primeira formação é a sensação de uma banda à procura. À procura da sua música, da sua voz, da sua imagem e até dos membros que seriam necessários para concretizar a ambição de Malcolm, que dizia desde o princípio que a sua banda seria uma das maiores do mundo. Esse primeiros tempos são marcados – algo que se tornaria clássico nos AC/DC – por mudanças de membros, com bateristas e baixistas a entrarem e saírem (nove entre 73 e 75!). É num destes períodos de instabilidade de formação que se dá a estreia nas gravações, com o single dos originais “Can i sit next to you girl” e “Rockin in the parlour”, que obteve algum sucesso radiofónico na Austrália. As sementes estavam lançadas mas algumas peças estavam ainda por encaixar.

Angus e o nascimento do uniforme escolar
É a imagem mais forte dos AC/DC, um pequeno guitarrista, vestido de uniforme da escola, a saltar pelo palco como um demónio e a soltar do seu instrumento riffs fabulosos a mil à hora. O nascimento desta personagem vem logo do início, do período 73/74. Nessa altura, os AC/DC eram, visualmente, muito próximos de uma banda de glam-rock, imitando o que mandava no Reino Unido. A ideia era ser o mais espalhafatoso possível e, para além das calças de cetim e lantejoulas, era frequente os membros da banda surgirem em palco mascarados de qualquer coisa. Num dos primeiros concertos, o baterista estava vestido de feiticeiro medieval, o baixista de motoqueiro a la Village People. Angus, o diminuto guitarrista, simplesmente apareceu no seu fato de colegial. Angus era o mais novo, mas os seus 19 anos pareciam 12 vestido daquela maneira. O impacto sobre a audiência foi brutal. Poucos meses depois, em 1974, quando o grupo decidiu deixar-se dessas tretas e largar o visual glam, toda a gente adoptou o look clássico do trabalhador: jeans e t-shirt. Todos menos Angus, que nunca mais largou o seu uniforme, costurado pela irmã. Sobre isto, o guitarrista tem uma explicação simples, dada várias vezes ao longo dos anos. “É necessário e para mim funciona”. Isto porque, segundo o próprio, “eu transformo-me numa pessoa diferente, naquele demónio, assim que visto o uniforme”. Fora de palco, vestido com roupas civis, Angus é um tipo baixinho e pacato, e o próprio admite que se não fosse essa roupa especial e essa transformação, provavelmente no início não teria conseguido sequer entrar em palco.
Outra curiosidade acerca desse facto é a ligação, ainda que indirecta…aos Beatles. A 31 de Julho de 1968, a loja de roupa da Apple, dos Beatles, em Londres, fechou. O grupo decidiu avisar os fãs, que poderiam chegar e simplesmente levar a roupa que quisessem, o que levou a enormes filas. Acontece que uma das pessoas na fila era a irmã mais velha de Angus, que lhe levou um casaco de veludo, de volta à Austrália. “Eu adorei aquele casaco, era tão flashy! Por isso, quando decidi mandar fazer um uniforme escolar para usar na banda, pedi que fosse em veludo. Fica fixe debaixo das luzes”, explicou Angus décadas mais tarde.

A entrada de Bon Scott
Ainda em 1974, dão-se duas mudanças fundamentais na vida da banda. A primeira é que Malcolm Young decide deixar de tocar guitarra solo (que dividia com Angus) para se concentrar na guitarra ritmo. Se Angus é visto como um virtuoso e um dos melhores guitarristas da história, reza a lenda (e Angus) que Malcolm era tão bom ou melhor. Mas havia um problema: Angus sempre teve dificuldade em manter o ritmo (é por isso, diz ele, que bate com os pés no chão e vive num incessante head-banging, que o ajuda instintivamente a marcar o tempo). Assim, quando era a vez de Malcolm solar, o irmão mais novo não mantinha bem o ritmo e o som ficava mais vazio. Malcolm, que tinha ambição para a banda mas nunca teve ego, tomou a decisão de ficar sempre no ritmo, definindo para sempre o sólido alicerce sonoro dos AC/DC. Mais, Angus era já a grande vedeta do grupo, e o irmão mais velho (compositor de quase todas as músicas, em alguma parceria com Angus) não tinha esse desejo. O sucesso de Malcolm só existia enquanto sucesso dos AC/DC. Tomou a melhor decisão. Sinal do sucesso crescente, em Agosto de 1974 os rapazes foram convidados para fazer as primeiras partes da digressão de Lou Reed na Austrália.
Mas houve uma mudança igualmente importante e mais visível. Dave Evans, o vocalista original, andava cada vez mais insatisfeito. Por um lado, por questões de dinheiro. Mesmo que o grupo se esfalfasse por concertos um pouco por todo o lado, o pagamento não era famoso. Por outro, Evans tinha um ego grande, e não gostava que Angus, o guitarrista, recebesse toda a atenção em vez do vocalista, algo pouco normal no cânone do rock n roll. A própria banda não estava contente com Evans, sobretudo Malcolm, e se este não está contente com algo no grupo…esse algo muda, sem dúvida alguma.
Em Setembro de 1974, num concerto em Perth, Angus envolveu-se à porrada com um membro do público que o estava a agarrar desde o início da noite. O grupo foi corrido e não foi pago, e gerou-se nova discussão com Dave Evans. Sem dinheiro e a mais de mil quilómetros de casa, os rapazes recorrem à ajuda de Michael Browning, empresário de Melbourne que tinha o Hard Rock local. Browning deu-lhes dinheiro e começou a ajudar também na gestão de carreira dos AC/DC (juntamente com George Young e Harry Vanda). O empresário gostava dos rapazes, sobretudo do talento de Angus com a guitarra, mas disse-lhes abertamente que faltava qualquer coisa: aquele vocalista armado em Jim Morrison não colava ali. E sugeriu um tipo ligeiramente mais velho chamado Bon Scott. A resposta de Malcolm foi inequívoca: já andava a pensar nele há algum tempo, e George também.
As origens de Bon Scott
Scott era, tal como os irmãos Young, um escocês emigrado na Austrália. Alguns anos mais velho que os seus companheiros, tinha andado por várias bandas (também chegou a ser baterista), como os pop-bubblegum The Valentines ou os hippies Fraternity, sempre sem grande sucesso. Pelo meio, foi um pouco de tudo para pagar a renda: cortou relva, trabalhou num posto de gasolina, numa empresa a descarregar fertilizantes à pazada, a pintar barcos. Um dos seus biscates, em 1974, foi colar cartazes dos AC/DC!
Scott já era casado e enfrentava pressão em casa para assentar e arranjar um emprego a sério, e andava desiludido com o mundo da música. Os AC/DC andavam a namorá-lo havia algum tempo e ele chegou a fazer uma audição, que correu muito bem. Mas o cantor hesitava em deixar-se levar novamente na música e nas bandas. Numa madrugada fria, ia a caminho de um novo emprego, pintar um enorme barco enferrujado, numa doca em Adelaide. Quando lá chegou, transido de frio, olhou para a besta que tinha à sua frente e terá dito: “que se foda isto, não vou fazer esta merda o resto da vida”. Voltou para trás e, quando chegou a casa, telefonou a Malcolm e fez a mala. Estava encontrado o novo vocalista dos AC/DC.
O novo vocalista encaixou de imediato e, logo aos primeiros ensaios, nunca houve qualquer dúvida. A banda estava a evoluir das origens mais glam para uma verdadeira máquina de rock n roll da classe trabalhadora, e Scott era a encarnação disso. Calças de ganga, tronco nu, voz poderosa e presença carismática em palco, e o ar (que não era só ar) de que a noite não acabaria antes de ele roubar a tua miúda e, possivelmente, ser preso por um qualquer delito menor. Bon Scott foi a peça que faltava para que estivesse completa a instituição AC/DC: uma banda de rock n rol, eléctrica e esfuziante, tocando para o homem comum, que passara a semana toda num trabalho da treta e, na sexta à noite, quer mamar uns copos, ouvir uma guitarra incandescente em ritmo frenético com canções sobre gajas, copos e… rockar. Simples e eficaz.
Pode, em tempos como os de hoje, parecer não apenas limitado como até algo neandertal. Mas essa é a força dos AC/DC, desde sempre: foram sempre variações dentro desse template original que ajudaram a construir, e nunca quiseram ser mais do que isso. Apenas isso mas, sobretudo em palco, os melhores a fazer isso.

Os primeiros álbuns e…invasão a Londres
Em Novembro de 1974, os rapazes vão para estúdio gravar o disco de estreia, que viria a chamar-se High Voltage, editado em Fevereiro de 1975. O álbum foi feito rapidamente, muitas vezes depois de saírem do palco para uma noitada de gravações. O material estava pronto, a banda oleada. Desse primeiro disco, apenas editado na Austrália, não ficaram grandes temas memoráveis do cânone da banda. Mais, o trabalho abre com uma cover de “Baby please don’t go”, que a banda já tinha deixado de tocar ao vivo, e há até o mais perto que os AC/DC estiveram de uma balada, em muitos anos, com “Love song”. O que fica é um registo próximo da banda ao vivo e, tirando alguns pormenores, um template que duraria anos para o grupo, e que se afirmaria totalmente no disco seguinte, T.N.T., editado em Dezembro de 75. Com a experiência do primeiro disco e um ano inteiro de palco e de Bon Scott a contribuir cada vez mais, este é o álbum que definiria para sempre o som dos AC/DC, e um dos melhores álbuns rock da década e, talvez, de sempre. É aqui que surgem temas icónicos como “The Jack”, “High Voltage”, e “T.N.T.”, que se tornariam para sempre parte da ementa dos rapazes ao vivo. Além disso, o disco arranca com o single “It’s a long way to the top (if you wanna rock n roll)”, uma espécie de manifesto da própria banda e que teve direito a videoclip (com gaitas de foles e Angus de cabelo curto!). Foi com base neste material que, no início de 76, os AC/DC assinaram um contrato internacional com a Atlantic Records. Pouco tempo depois, estavam de malas feitas para Londres, para o novo e triunfal capítulo da sua história.
A conquista de Inglaterra
No Reino Unido, fizeram aquilo que melhor sabiam fazer: ir para o palco e rebentar com tudo. Estavam sempre a tocar, em palcos pequenos e médios, e são dessa altura as primeiras críticas dos poderosos jornais de música ingleses. Estes oscilavam entre o gozo e a diminuição do que lhes pareciam os pouco sofisticados australianos com o seu atrasado hard-rock clássico e o elogio à honestidade e entrega dos concertos, bem como à resposta suada que a audiência (toda jovem, toda masculina) lhes dava. Esse período ganhou gás com a primeira edição internacional de um disco, em Maio de 76, na forma de High Voltage (recuperando o título do primeiro álbum, apenas editado na Austrália). Na verdade, isto não é mais que uma compilação dos dois discos australianos, com 80% de T.N.T. Em setembro do mesmo ano, é editado Dirty Deeds Done Dirt Cheap, com uma capa desenhada pela Hipgnosis (a da edição australiana é medonha, diga-se), sinal de que os rapazes estavam a subir na vida. Além da faixa-título, é a casa de “Rocker” ou “Problem Child”, chegando ao top 3 nos Estados Unidos da América em…1981, uma vez que não foi lá editado originalmente. Por falar em Estados Unidos, a relação com a Atlantic não era famosa, com os responsáveis a embirarrem com a voz estridente de Scott e sem saber como vender aquele produto, ainda que algumas rádios independentes os tivessem adoptado.
Só a meio de 77 os AC/DC aterrariam pela primeira vez no eldorado americano. Nos tempos seguintes passariam muitas noites na estrada, levando o seu rock e caos um pouco a todo o lado, incluindo digressões com Aerosmith, Cheap Trick ou Kiss. Em 1977 sai Let There Be Rock, que chegou ao top 20 britânico, incluindo a faixa-título, “Bad boy boogie”, “Hell aint a bad place to be” ou o clássico “Whole lotta Rosie”. Em 78 é a vez de Powerage, que voltou a vender bem no Reino Unido e mais ou menos nos Estados Unidos, um padrão que se repetia. Imediatamente antes da gravação, o baixista Mark Evans é despedido, dando lugar ao inglês Cliff Williams. O alinhamento clássico dessa primeira fase dos AC/DC estava completo, com Williams, Malcolm, Angus, Scott e o baterista Phill Rudd. Este é o grupo que mais tempo estaria ao serviço do grupo à excepção de Scott, com Angus, Williams e Rudd oficialmente ainda na banda, em 2023.
Em Outubro de 78 é editado If You Want Blood, o primeiro disco ao vivo dos AC/DC e um dos melhores discos ao vivo de rock alguma vez editado. A editora andava a pedir uma espécie de best-of, mas os rapazes não gostavam disso (impressionante como, até hoje, não existe uma compilação oficial de greatest hits deles). Em vez disso, preferiram gravar o concerto de Abril desse ano em Glasgow, aproveitando a forma entusiástica como o público escocês responde aos espectáculos ao vivo. O que é curioso é que, em vez de um alinhamento de singles e êxitos, os rapazes foram para algo mais orgânico, temas possivelmente menos óbvios mas muito representativos daquilo que faziam ao vivo, como “The Jack”, “Riff raff” ou “Bad boy boogie”. Este é o disco que consagra definitivamente Angus e a sua guitarra destruidora e Bon Scott, na sua versão descarada, divertida e perigosa, enquanto excelente frontman. Mais uma vez, boas vendas no Reino Unido, pouca reposta nos Estados Unidos.
Os rapazes estavam há cinco anos a trabalhar duramente, na estrada e nas gravações, e estavam a viver o seu sonho rock n roll, nos maiores mercados da música. Só faltava uma coisa: conquistar definitivamente o mundo, algo que fariam logo de seguida.
Highway to Hell e morte de Bon Scott
No final da década de 70, os AC/DC vinham numa trajectória crescente, mas faltava o maior prémio de todos, a conquista do mercado norte-americano. Numa banda famosa pelas mudanças, havia mais a caminho. Agora foi um novo agente, americano, e um novo produtor. George Young e Harry Vanda tinham sido responsáveis por todos os discos até então, mas foram obrigados a ceder a cadeira, por imposição da Atlantic Records, que achava que a proximidade (até familiar) destes com a banda os impedia de tomar decisões difíceis. Foi escolhido Eddie Kramer, mas depois de umas semanas de trabalho sem grandes resultados e sem grande química, em Miami, este foi substituído por um nome emergente: o sul-africano Robert John “Mutt” Lange. Este não era ainda o produtor que, pouco depois, faria dos Def Leppard um fenómeno global e longe vinham os anos do trabalho com gigantes da pop (como da sua então esposa Shania Twain) que o tornariam rico e um dos profissionais mais requisitados do ramo.

As sessões do que viria a ser Highway To Hell decorreram em Londres e Mutt Lange impôs as suas regras, que a banda aceitou de bom grado. O som continua a ser pesado mas está mais “limpo”, mais definido. À estrutura básica dos AC/DC, Lange retirou o que estaria a mais e acrescentou, aqui e ali, backing vocals (participando ele próprio várias vezes). Os cinco membros da banda estavam muito oleados e funcionavam na perfeição uns com os outros. Ainda por cima, os temas eram fortes. Todos tinham consciência de que estavam perante a oportunidade de fazer um disco que chamaria a atenção.
E foi exactamente isso que aconteceu. Com uma capa em que, pela primeira vez, apareciam os cinco músicos, este álbum arranca com o clássico “Highway to hell”, quase um manifesto de vida. Se é verdade que o grupo já tinha tido discos mais fortes em termos de temas individuais, este era o seu trabalho mais coeso e coerente até então. Uma sonoridade, um conceito, um grande título, uma boa capa. E, finalmente, a Atlantic a apoiar realmente a banda. Tudo bateu certo. Highway To Hell chegaria a número 8 no Reino Unido, número 17 nos Estados Unidos, e viria a vender sete milhões de cópias. A porta do sucesso mundial tinha sido escancarada com um vigoroso e inescapável pontapé.
No entanto, numa das ironias tristes da história do rock n rol, foi exactamente nesse momento que as coisas se despedaçaram.
Highway To Hell foi editado em Julho de 79 e, pelo meio dos concertos, a banda começou de imediato a trabalhar nos temas de um novo trabalho, com confiança redobrada. Mas, em Fevereiro de 1980, o vocalista Bon Scott estava morto, aos 33 anos.
Scott sempre fora um bebedor inveterado, consumindo quantidades inacreditáveis de álcool mas estando sempre pronto para o serviço, como se a sua origem escocesa o deixasse de certa forma imune aos efeitos mais destrutivos da bebida. Mas isso acabou naquele fevereiro, em Londres. Depois de uma noite de excessos, Scott morreu de envenenamento alcoólico e por ter sufocado no seu próprio vómito enquanto estava inconsciente, algo que sucedeu também a John Bonham, o magnífico baterista dos Led Zeppelin, poucos meses depois.
Depois de tanto trabalho, tantos anos de estrada e de companheirismo, e com um sucesso mundial nas mãos, o mundo dos AC/DC – que sempre cantaram sobre rockar e curtir sem pensar nas consequências – ruiu subitamente.

Renascimento e Back In Black
Quando Scott morreu, a banda estava já a preparar o disco a seguir a Highway To Hell, novamente com Mutt Lange aos comandos. Angus chegou a dizer que, nessa altura, ponderaram se deviam acabar, mas é pouco crível que essa hipótese tivesse sido levada assim tão a sério. É que os AC/DC são como um exército do rock, e não é por morrer um soldado que a tropa desiste, mesmo que esse soldado seja um general. A prova de que a intenção foi rapidamente a de seguir em frente é que a banda se apressou a ouvir cantores e até a fazer audições, tendo como únicas condições: não ser um clone de Bon Scott; saber cantar rock n rol; e ser um tipo porreiro.
A solução chegou rapidamente na forma do inglês Brian Johnson, um tipo ligeiramente mais velho que eles (tal como Scott) e que era uma espécie de veterano na cena de pub rock inglesa, ao leme dos Geordie, um grupo que fazia sobretudo um glam a lembrar os Slade. Se Scott trazia a imagem do bom rufia, sedento de miúdas e copos, Johnson mantinha a voz (ainda mais) estridente mas parecia um tio porreiraço, de colete e eterna boina na cabeça, a sua imagem de marca.
Apenas um mês após o funeral de Scott, os AC/DC tinham um novo vocalista; duas semanas depois estavam a gravar Back In Black. Escolheram um estúdio nas Bahamas, aparentemente sobretudo por questões fiscais, mas o resultado não ficou em nada contaminado por tão exótico e tropical cenário. A banda mantém que a música estava toda escrita antes da morte de Scott e que este deixara apenas algumas letras, mas que Johnson acabou por reescrever o que iria cantar. No entanto, o espírito de Scott está inegavelmente presente no registo, começando pelo título, Back In Black, com uma capa negra, em homenagem ao amigo desaparecido.
Neste disco, Mutt Lange leva ainda mais longe a fórmula bem sucedida de Highway To Hell. Basicamente, reduzindo a banda à sua essência, cortando o ruído à volta, carregando nos backing vocals concentrados que fariam o sucesso de tanta banda rock nos anos seguintes, inspirados ou mesmo diretamente guiados por Lange. Se Highway To Hell era o trabalho mais coeso e comercialmente concentrado dos AC/DC, Back In Black reforça isso ainda mais, graças a temas que se tornaram clássicos instantâneos da banda. Desde a abertura com “Hell Bells”, com a banda a encomendar propositadamente um sino de uma tonelada a uma fundição inglesa; à imparável malha rock “Shoot to Thrill”; à incrível e absolutamente reconhecível faixa-título, “Back in Black”, que abre o lado B; ao enorme single pop-rock de “You shook me all night long”; fechando com a bluesy “Rock and rol ain’t noise pollution”.
Os AC/DC não apenas sobreviveram à morte. Back In Black destruiu as tabelas de vendas (número um em Inglaterra, top 4 nos Estados Unidos) e vende até hoje. É apontado, aliás, como o disco de rock mais vendido da história, e um dos mais vendidos de qualquer género musical.
Os rapazes suspiraram de alívio com este sucesso. Havia futuro para os AC/DC. Se superavam a morte do carismático Bon Scott, nada os poderia travar.

O fim da fase imperial e os difíceis anos 80
Um ano e meio depois, em Novembro de 1981, é editado o sucessor do colosso Back In Black, chamado For Those About To Rock. Mais uma vez, Mutt Lange foi chamado à cadeira do produtor para as gravações em Paris, mas a banda começava a ficar algo cansada do perfeccionismo pop do produtor. Este exigia take após take até encontrar o som perfeito, algo que não caía bem com a atitude rock n roll e espontânea da banda. O disco acaba por dar apenas um clássico para os espectáculos ao vivo, a abertura com o mantra “For those about to rock (We salute you)”, muitas vezes a abertura dos concertos, com direito a tiros de canhão e tudo. É um disco limpinho, talvez demasiado limpinho, e que acaba por empalidecer face aos dois registos imediatamente anteriores. No entanto, na altura, foi um grande sucesso de vendas, chegando a número 1 na América e 3 no Reino Unido. Os AC/DC vinham embalados do sucesso anterior e de uma enorme popularidade conquistada, pelo que os discos vendiam mesmo não sendo incríveis (um padrão que continuaria ao longo da vida da banda, até hoje). For Those About To Rock marca o fim da “fase imperial” dos AC/DC e da sua parceria com Mutt Lange, agora um produtor altamente disputado no segmento do hard-rock mais comercial e, em breve, do odioso hair-rock, onde todos os seus truques de produção eram preciosos.
Os discos seguintes seguem o padrão de alguma falta de inspiração. Em 1983, Flick Of The Switch é produzido pela própria banda e pretendia ser um regresso ao som mais sujo e espontâneo das origens do grupo, e uma reação ao mainstream que tanto sucesso lhes havia trazido. Não é um mau disco, mas na altura sofreu por não ter, de facto, um single de relevo. Ainda assim, vendeu.
Aquando da edição de Flick Of The Switch, nova baixa: o baterista Phill Rudd, com problemas pessoais e relacionados com droga, saiu, sendo substituído por Simon Wright, que gravaria os dois álbuns seguintes.
Os AC/DC continuavam a encher estádios por todo o mundo e estavam claramente no topo da primeira divisão do rock n roll, mas chegados a meio da década de 80 começavam a ser vistos pela crítica como ultrapassados. O rock da moda era agora menos “feios, porcos e maus” e mais estilizado, mais efeminado, com mais laca e brilhos, para consumo de uma nascente MTV que adorava Bon Jovi, Van Halen, David Lee Roth ou Mötley Crüe. Era o tempo do hair-rock, e os labregos da Austrália pareciam…bem, uns labregos da Austrália.
Mas os rapazes não ligavam a isso, tal como não haviam ligado ao punk quando chegaram a Inglaterra para conquistar o mundo. Até hoje, não vela a pena perguntar a Angus Young por música de agora que possa ouvir: não conhece, não quer muito saber, e parece não consumir nada gravado depois dos anos 60.
Fly On The Wall é editado em 1985, com vendas fracas para o padrão AC/DC. Criativamente também não é grande disco, e os seus temas não ficaram para a história do grupo. Depois, novo susto: Malcolm Young tem de se afastar durante uns tempos, para lidar com o seu problema de alcoolismo. É talvez por isso que o disco seguinte, Blow Up Your Video, de 1988, conta não com a produção dos irmãos Young mas com o regresso de Harry Vanda e George Young, que vieram tomar conta das coisas quando Malcolm começou a fraquejar. É um disco melhor que o antecessor e teve sucesso, muito graças ao single “Heetseeker” e ao seu vídeo que conquistou a MTV. À altura, foi mesmo o single dos AC/DC que chegou mais alto nas vendas no Reino Unido.
Mais problemas e… olá Thunderstruck
Ninguém diz que o caminho de uma banda de rock n roll é simples, sobretudo quando falamos de um colosso transcontinental. No final dos anos 80, os AC/DC enfrentaram novos grandes desafios. Malcolm Young lutava contra o alcoolismo (levando o sobrinho Stevie Young a substitui-lo nalgumas datas da digressão de Blow Up Your Video); Simon Wright, o baterista nos seis anos anteriores, despediu-se, sendo substituído pelo músico de estúdio Chris Slade; e Brian Johnson, o vocalista e letrista da banda desde Back In Black, tirou vários meses de licença para ir tratar dos problemas do seu divórcio, nomeadamente legais. Isto significaria que, para manter o prazo de um novo disco, Malcolm e Angus teriam de escrever não apenas todas as músicas mas também todas as letras. E foi exactamente isso que fizeram.
The Razors Edge surge num período sensível. Os rapazes estavam ricos, graças às digressões e às vendas de CD que se havia afirmado o formato dominante face ao vinil. No entanto, os hits surgiam cada vez mais espaçados, e a paisagem do rock tinha mudado, com o hair-rock a dar lugar a um rock mais pesado e sujo, personificado nos norte-americanos Guns n’ Roses. Por isso, o disco seguinte seria mais uma prova de vida, e a escolha do produtor mostra o que os AC/DC andavam à procura. Chamaram o canadiano Bruce Fairbarn, fresquinho de grandes sucessos com Bon Jovi, Aerosmith ou INXS, bem como de coisas indigestas mas altamente na moda então como os Scorpions ou os insuportáveis Poison. Fairbarn e os rapazes deram-se imediatamente bem, com o som polido e feito para o sucesso do canadiano a contrastar com a sua atitude de admiração pelo que os AC/DC sempre haviam representado.
Editado em Setembro de 1990, The Razors Edge é ao mesmo tempo uma nova vida para os AC/DC como o fim da sua força dominante mundial. Sendo um disco bastante razoável, não seria nada do que foi não fosse o single e tema de abertura, o inesquecível “Thunderstruck”. Tem mais de mil milhões de escutas no spotify e o seu vídeo estava constantemente a passar na MTV, introduzindo os AC/DC a toda uma geração mais nova, fascinada com aquele guitarrista demente vestido de colegial. Até a capa, slick e bem desenhada para a época, fez a diferença. The Razors Edge e, sobretudo, “Thunderstruck”, estavam em todo o lado e foi a última vez que os rapazes chegaram tão alto em termos de sucesso mediático e influência “cultural”. Essa música e esse vídeo asseguraram que os miúdos de 1990 nunca mais se esqueceriam do seu nome. Mais, iriam ver os seus concertos e procurar os discos mais antigos, numa renovação essencial da base de fãs.
Mais arroz
Desde então, e com mais uns hits no alforge, os AC/DC continuaram a ser ícones musicais, a encher concertos incríveis por todo o mundo, mas relativamente irrelevantes a nível de discos. Em 1992 é editado o colossal AC/DC Live, actualizando com hits posteriores e com Brian Johnson e o registo ao vivo de If You Want Blood. Em 1993, sem disco novo, aí estão eles de volta à ribalta, graças a single “Big Gun”, da banda-sonora de The Last Action Hero, filme de acção com Arnold Schwarzenegger que aparece no teledisco, vestido com um uniforme escolar.
No entanto, era o tempo do grunge, das bandas terra a terra e das anti-vedetas, a antítese do excesso rock n rol de estádio dos AC/DC. Eles nunca andaram realmente atrás de modas ou do som do momento, e não seria já com tantos anos de carreira que o começariam a fazer. O ciclo que se iniciou nos anos 90 é simples de descrever: um disco de vez em quando, uma desculpa para ir em digressão e fazer a enorme festa do costume. Curiosamente, a banda era tão grande que os álbuns novos até vendiam muito bem, mesmo sendo um pouco mais do mesmo. É o caso de Ballbreaker, de 1995 (marcando o regresso de Phill Rudd, recuperado, à bateria) ou Stiff Upper Lipp, de 2000.
Black Ice e o fim de uma longa era
Passariam oito longos anos até termos um novo disco, o maior intervalo entre álbuns da banda até então. E, ao contrário do que era a sua vida até ao novo milénio, a banda praticamente não tocava junto nos últimos anos. Esta nova vida foi marcada por uma mudança de editora, da Elektra para a Sony, e pela escolha de mais um novo produtor, Brendan O’Brien, que fez o seu nome em projectos gigantes como Pearl Jam ou Bruce Springsteen. O local da gravação? O estúdio The Warehouse, em Toronto, propriedade de Bryan Adams.
Apesar de os rapazes não estarem exactamente oleados, assim que chegaram ao estúdio a coisa rolou de imediato. As novas canções, escritas pelos irmãos Young, eram excitantes e estavam no ponto, e ninguém diria que os AC/DC não estavam juntos em palco há bastante tempo. Se os gatos têm sete vidas, os AC/DC certamente não têm menos, e Black Ice, editado em 2008, veio provar isso novamente. Puxado por singles como “Rock n Roll train”. “Money made” ou “Big Jack”, e com uma enorme campanha de marketing por parte da nova editora, o disco chegou a número um tanto nos Estados Unidos como em Inglaterra. Os AC/DC, de forma altamente improvável, estavam novamente no topo. Numa altura em que quase toda a gente já vendia a sua música na internet, de uma forma ou de outra, os australianos ainda recusavam essa “modernice”, e quem queria Black Ice tinha de ir à loja e comprar. Funcionou. Na altura, dizia-se que o disco tinha batido o record para o mais ilegalmente descarregado, levando Angus a responder: “sei lá se isso é verdade. Se é ilegal, quem está a contar isso?”.
Mas este é um disco que fica para a história também por outra razão: foi o último a contar com o mentor e fundador da banda, Malcolm Young. Mais tarde, Angus admitiria que, nas sessões de escrita para Black Ice, notou pela primeira vez que algo não estava bem com o seu irmão: “foram coisas estranhas, falhas de memória. O Malcolm foi sempre muito organizado, e pela primeira vez isso não estava a acontecer, estava desorganizado, confuso acerca de muitas coisas”. Malcolm procurou ajuda médica e isso durou durante toda a digressão seguinte, de 2008 a 2010. Em 2014, o diagnóstico torna-se oficial e público: Malcolm Young, o miúdo que, em 1973, começara uma banda de rock na garagem, na Austrália, sofria de demência.

Continuar, continuar
Em 2014, os AC/DC haviam sobrevivido à morte do vocalista inicial, à saída do seu mentor e principal compositor e a mais mudanças de baterista do que seria imaginável. Por isso, quando sai para as lojas Rock or Bust, o título não podia ser mais apropriado. Perante todos os desafios, perante todas as adversidades, a resposta é sempre uma e a mesma: continuar a rockar.
Os problemas pareciam vir de todo o lado, e atingiram até Phil Rudd. O veterano baterista foi preso pouco antes do lançamento do disco, com acusações que iam desde a posse de metanfetaminas a ameaças de morte, passando por algo ainda mais grave: ter encomendado um assassinato, que acabou por não acontecer. Rudd gravaria o disco mas acabou por sair da banda, para cumprir pena em 2015.
Sem Malcolm, retirado e a ficar cada vez pior da sua doença galopante, a responsabilidade caiu toda sobre os ombros de Angus, ainda que uma maior participação da banda do que era habitual, nas composições. O resultado é um disco curto, directo, que sintetiza em 11 canções a ética dos AC/DC. Aqui não há espaço para semi-baladas ou temas mais bluesy. É sempre a abrir. Brendan O’Brien volta à cadeira de produtor e eleva o som fazendo um excelente equilíbrio entre o rock rugoso de sempre e refrões melódicos e bem suportados.
Os AC/DC são, acima de tudo, uma instituição familiar. Daí que, para o lugar de Malcolm, tenha entrado o seu sobrinho, Stevie Young, que no passado já tinha substituído temporariamente o tio, numa digressão. Não nos deixemos enganar, Stevie não era exactamente um jovem, já que é apenas um ano mais novo que Angus e três anos mais novo que Malcolm.
Na digressão que se seguiu, a banda foi para a estrada sem Malcolm e sem Rudd, mas com Stevie e Chris Slade, que regressou depois de ter saído em 1993, para o regresso de Rudd.
Mais uma baixa e…Axl Rose?!
Em 2016, a digressão europeia dos AC/DC começaria em Lisboa, até que soaram os alarmes. O vocalista Brian Johnson estava a ficar cada vez mais surdo e foi avisado pelos médicos: nem mais um concerto ou poderia perder totalmente a audição. Os rapazes eram duros e podiam resistir a muita coisa, mas ficar sem o vocalista dos últimos 36 anos? Difícil. Tudo foi ponderado, até pendurar as botas de uma vez. No fim, prevaleceu a decisão de Angus e do baixista Cliff Williams, os dois mais longevos membros do grupo. A digressão estava montada, as equipas contratadas, muito dinheiro investido. E, como explicou Angus na altura: “não podes chamar a uma digressão Rock or bust e depois dar…bust. Temos de acabar o que começámos”.
Era para seguir, mas era preciso ter alguém a cantar. Pensaram em ter vários vocalistas convidados, fizeram audições à pressa (incluindo cantores de bandas de tributo aos AC/DC), até que chegou uma mensagem, através de um conhecido comum: o Axl Rose, dos Guns n’ Roses está interessado e quer muito fazer isto. Não sabemos o nível de entusiasmo com que esta possibilidade foi recebida, mas parecia uma solução pronta para um problema gigantesco.
As bandas conheciam-se bem, já se tinham cruzado várias vezes em concertos. E Axl era um enorme fã da música dos AC/DC desde criança, quando ainda nem tinha uma banda e vivia em Lafayette, Indiana.
Como se isto não fosse suficientemente estranho, Axl andava na estrada com os Guns e, num dos concertos, partiu um pé, o que o obrigou a passar boa parte dos espectáculos sentado (no trono que Dave Grohl havia mandado fazer, quando passou pelo mesmo).
O grupo entrou em ensaios ao estilo militar para assegurar que Axl estava enturmado e que o novo alinhamento ia funcionar (o vocalista adorou a experiência e elegeu como a melhor parte cantar “Hells Bells”, que considerou a mais difícil para o seu tom de voz). No entanto, alguns fãs não ficaram contentes. Muitos venderam os seus bilhetes quando souberam que seria Axl, e não Brian Johnson, na voz. No final, tudo acabou por correr bem. Os AC/DC haviam novamente saído vivos de uma situação que parecia impossível.

Morte e renascimento
Em 2017, o mundo dos AC/DC foi abalado por duas mortes na família. Malcolm Young morreu aos 64 anos, depois de passar os anos anteriores a afundar-se cada vez mais na demência (Angus contou que só encontrava o seu velho irmão quando lhe tocava guitarra, na clínica, fazendo aparecer um sorriso por detrás da névoa da doença). Poucas semanas antes, havia sido a vez de George Young, o irmão mais velho que havia servido de mentor e produtor dos AC/DC, essencial na sua afirmação.
Estas mortes parecem ter servido como o motor para uma nova reunião, bem ao estilo do grupo: provar que havia ainda vida no meio de tanta devastação.
As peças encaixaram para esta última (até ver) investida. Contra todas as probabilidades, Brian Johnson viu a sua audição ser restaurada graças a um tratamento experimental que lhe possibilitou a implantação de próteses nos tímpanos. O baixista Cliff Williams, que tinha pendurado finalmente a guitarra baixo no fim da digressão anterior, aceitou mais uma corrida. E até Phil Rudd, o baterista, regressou depois de cumprir o seu tempo de prisão e ter feito uma profunda reabilitação.
Editado em 2020, Power Up é dedicado a Malcolm Young, da mesma forma que Back In Black havia sido dedicado a outra baixa de guerra, Bon Scott. Todas as músicas são atribuídas a Malcolm Young/Angus Young, com o irmão mais novo a usar vários dos riffs que Malcolm foi deixando gravados aqui e ali, antes da doença o impossibilitar de continuar.
Não estando entre os melhores discos de AC/DC (sejamos francos, nem poderia), é mais um sólido álbum de rock n roll. Mais estranho ainda, chegou a número um de vendas dos dois lados do Atlântico, impulsionado pelos velhos fãs completistas que cresceram num mundo em que gostar de uma banda era comprar os seus discos, todos os seus discos.
Falando ao NME, em 2020, Brian Johnson explica: “este ano tem sido tão mau e são tempos desesperantes para toda a gente. Este disco transmite o puro poder do rock n roll, que outros tipos de música não conseguem atingir. Há por aí muita coisa a acontecer, com uma data de dançarinos e cantores no palco e parece-me tudo muito pastilha elástica e simpático. É fixe levar com um shot de rock n roll”.
Futuro e legado
Com os seus membros a bater nos 70 anos, a lógica diria que os AC/DC estão perto do fim, 50 anos depois desses primeiros ensaios de uns putos esqueléticos num subúrbio working-class australiano. Mas, como já vimos, é um erro subestimar esta banda e a sua capacidade para seguir em frente, no meio do tiroteio e das explosões.
A importância histórica e cultural dos AC/DC é inquestionável, enquanto mega-estrelas que fizeram milhares e milhares de puto pegarem numa guitarra eléctrica. São, juntamente com os Stones, os maiores pregadores da Bíblia do rock n roll enquanto entidade salvadora de uma vida dura e aborrecida.

Já o que podem trazer os AC/DC, septuagenários, na segunda década do século XX? Nada mais para além do que sempre trouxeram. A fuga, a redenção, a salvação através dos decibéis e do velho e sujo rock n roll.
Ficamos com as palavras ditas por um jovem Angus Young, em 1976, ao Melody Maker: “o rock é acerca de diversão e se esqueces isso e levas a parte do negócio demasiado a sério, o público percebe isso. Eu honestamente acredito em dar ao público o que ele quer. É claro que nós gostaríamos de conquistar o mundo e continuar para sempre, como o Chuck Berry. Mas se o mundo acabar amanhã, se não conseguirmos, ao menos posso dizer que o fiz, que fui um músico de rock n roll”.
Obrigado por tantas décadas de tantos riffs, de tantos espectáculos, de tanta persistência. De tanto rock n roll.
We Salute You.