Dos sonhos aos palcos vai um imenso caminho. Todos os empurrões e mãos dadas são mais do que bem vindos. A malta de Corroios sabe bem disso e há 30 anos que o faz com garra e um sorriso vincado. Na segunda sessão da XXIX edição do Festival de Música Moderna de Corroios, Flor Girino, Rima Russa e Objeto Quase deram o corpo ao manifesto, numa festa da música que os Baleia Baleia Baleia tornaram de arromba.
“Há sempre
Um novo horizonte
Escondido atrás do monte
Pantanoso do Nada
Deixa passar
Há sempre
Luz no meio da estrada
E a ideologia
A dar força à braçada
Deixa passar”
(Baleia Baleia Baleia – “Exorcismo”)
Foi com este hino à vida malvada que os Baleia Baleia Baleia encerraram a segunda sessão da XXIX edição do Festival de Música Moderna de Corroios. Foi com Manuel Molarinho e Ricardo Cabral abraçados ao público e o “Deixa Passar” como frase de ordem a marcar a celebração de 30 anos de Festival, das lutas e aventuras da vida de uma banda, dos prazeres e sacrifícios dos fãs! Dificilmente haveria melhor forma de fechar a noite!
Faria todo o sentido utilizar os próximos parágrafos para tecer loas à Junta de Freguesia de Corroios e a todos os responsáveis por manterem de pé, ao longo de três décadas, um certame e um movimento que luta por acarinhar todos os bandos de adolescentes (de todas as idades) que insistem em sugar todo o tutano da vida em salas de ensaio, nos palcos ou ali mesmo no quarto, agarrados à guitarra. Poderia até fazer sentido, mas nunca lhes faria tanta justiça como penso que fará espicaçar-vos para irem lá … ao Ginásio Clube, estudarem as fotos espalhadas pelo corredor, as memórias e a vida do Rock nacional, sentirem a pica nervosa de quem sobe ao palco, absorverem o espírito da sala! Ainda vão a tempo, espreitem a agenda no fim do texto!
Vamos então às bandas do passado sábado!
Os Flor Girino foram os corajosos que primeiro enfrentaram o público que ia enchendo a sala. Numa atuação assente no fresquíssimo primeiro álbum da banda, Charcolepsia, o jovem quarteto lisboeta foi pintando a sua tela sónica com um padrão Rock leopardo, com umas pintas pop, outras mais psicadélicas e outras ainda, se calhar em maioria, mais proggy! Cantado em português, e com recurso a duas vozes principais, as letras parecem ser dominadas por temas, ou metáforas, naturais. Não sei se foi por ter sido o último tema, e a banda já estar bem mais solta por essa altura, mas a minha preferência vai para a meia volta de “180 (e cinco)”.
O quarteto Rima Russa veio a seguir e, como se diz na gíria futebolística, simplificaram processos. Rock puro e duro, a fazer lembrar os noventas, e muito assente no jogo entre as guitarras de Ricardo Rocha e Sandro Galvão e uma secção rítmica super sólida composta por Manuel Marques (baixo) e Rúben Adegas (bateria). Sandro canta em bom português com o belo sotaque tripeiro e brinca com as texturas proporcionadas por um micro cheio de distorção … sim, como escrevi, muito noventas! Que saudades! Ainda sem registos físicos, a banda tem disponível no seu canal de youtube algumas amostras do seu trabalho, como o novo “Fora de ti”. Vão lá espreitar.
Já tínhamos apanhado os Objeto Quase numa noite fria de dezembro. Entretanto, a temperatura subiu um pouco, e parecendo que não, já passaram 3 meses. Sinto uma evolução ainda maior na banda. O quinteto mostra-se mais à vontade e nota-se que os moços sabem o que fazem. Mesmo a influência dos Ornatos soa um pouco mais diluída e mais focada no vozeirão do Miguel Moreira. O som dos Objeto Quase está um pouco mais cheio e o seu Rock, de tendência alternativa, mais musculado. Não fazendo, no entanto, jus ao nome, o EP Falsa Partida – editado no fim do ano passado – já parece ter sido feito noutras primaveras. Vejamos até onde estes moços nos levam.
Todas as sessões do Festival são apadrinhadas por uma banda de renome. Desta vez, coube-nos em sorte os Baleia Baleia Baleia. E a palavra sorte não é muleta nem figura de estilo. O duo portuense já não tocava ao vivo há mais de dois meses, e fomos nós que pagamos a conta… em dança, coros e vibração! Com a rodagem que eles têm, já poderiam tocar de olhos fechados, e a ausência dos palcos – para o trabalho de gravação do seu próximo disco – “só” se fez sentir na imensa pica que levaram até Corroios.
A dupla Molarinho e Cabral continua com buéda amor para dar. Amor, humor … mais ou menos parvo (é um elogio), … muita eletricidade, muita distorção, muito ritmo e muita locura! No meio de clássicos – é mais do que justo chamar-lhes isso – como “Egossistema”, “Politicamente Correto” (pedido pelo público) ou a entremeada “Quero ser um ecrã”+ “Apocalipse” (dos Conferência Inferno), fomos ouvindo riffs de outros clássicos e um tema novo … a deixar-nos água na boca para o que para aí vem! Para o fim, o épico “Exorcismo”, que mesmo depois dos amplificadores se desligarem, ficou a ecoar nas nossas mentes.
Próximas datas do Festival de Música Moderna de Corroios:
3ª Sessão – 22 de março
Ya Sin | Sadhäna | Monoclodes
Convidados: Rosa Sparks
4ª Sessão – 29 de março
Natural Magic | John Black Wolf & The Bandits | Beach Wreck
Convidados: Them Flying Monkeys
Final – 5 de abril
3 bandas selectionadas
Convidados: Mars County





























