Reportagens

Zen || Musicbox

Um concerto de Zen em 2019, com Rui Silva na voz, parecia algo de inesperado, mas aconteceu, na noite de sexta-feira, em Lisboa. E foi muito bom.

A onda de revivalismo dos 90 está a ser uma cena muito fixe. Como todas as outras, tem algumas coisas más, como o regresso dos sobretudos onde cabem duas pessoas ou as blusas com franzidos e laços enormes e, como se já não bastasse, cores garridas ou metalizadas. Mas tem coisas boas, como haver botas Doc Martens mais baratas ou o regresso de bandas como os Faith No More, os Rage Against the Machine ou – porque estamos em Portugal – os Ornatos Violeta, os Da Weasel e – pasmem-se os que viveram os 90 – os Zen. Sim, os Zen.

Mas quem são os Zen? É que agora toda a gente sabe quem são os Ornatos, incluindo quem nasceu depois deles acabarem. Prova: encheram o Campo Pequeno, em Lisboa na sexta-feira à noite. Mas os Zen… creio que muita gente não sabe quem são, e não são só os que nasceram nos anos 90 e 2000 (sim, estes também já vão a concertos!). Prova: na mesma sexta-feira à noite que os Ornatos quase esgotaram o Campo Pequeno, os Zen tocaram para um Musicbox muito despido. Se tivesse de atirar um número para o ar, diria que estavam a assistir umas 35 pessoas. Mas há um ditado que diz “Poucos mas bons” e neste caso assenta quem nem uma luva, porque quem lá estava sabia bem quem são os Zen e divertiu-se a valer. Até porque era ao vivo que eles realmente se mostravam. Já explico porquê.

Antes disso há que contextualizar. Os Zen formaram-se no Porto em 1996, editaram um EP de apresentação em 1997 (nos 90 era assim), andaram a correr os festivais da altura e destacaram-se logo pela figura carismática e atitude divertida, mas intempestiva e imprevisível do vocalista Rui Silva. O primeiro álbum completo – The Privilege of Making the Wrong Choice – é editado em 1998 e junta o rock, às vezes quase stoner, ao funk e ao groove, e ainda à peculiar mas viciante voz de Rui Silva. É daqueles discos que tem um ou dois temas menos bons e algumas falhas técnicas, mas que é, hoje, um dos melhores álbuns de música portuguesa, pelo menos, dos anos 90. Aliás, ouvi-lo agora ao vivo, 21 anos depois de ter sido editado, dá para perceber melhor a qualidade e a originalidade. Para muitos fãs é mesmo considerado o único álbum dos Zen porque, em 2002, Rui Silva abandonou a banda e foi substituído por João Fino, com quem editaram um novo álbum, mas que passou muito despercebido.

Ora foi precisamente pelo aniversário dos 20 anos de The Privilege of Making the Wrong Choice que os Zen foram parar ao Musicbox na noite de sexta-feira, 6 de dezembro de 2019, com Rui Silva na voz. A noite foi um pouco madrasta, porque o concerto de Ornatos era o último concerto da tour de despedida e porque, para os lados do Bairro Alto, na ZdB, os Dead Combo davam o primeiro concerto da tour de despedida. Mas, à excepção da pouca audiência – o que até permitiu mais intimidade e cumplicidade com a banda – estava lá tudo como devia estar. Tocaram apenas aquele álbum, portanto foi um concerto rápido, mas intenso e coeso.

Na parte instrumental, carregaram na sonoridade stoner dos temas e fizeram-nos recordar como são bons músicos. Por exemplo, o tema mais conhecido dos Zen – “U.N.L.O” – é daqueles que tem tudo para correr mal ao vivo, mas sempre resultou na perfeição. E na parte cénica, Rui Silva esteve igual a si próprio, com os seus maneirismos de pessoa enlouquecida, a pedir cigarros e goles de cerveja a pessoas do público, a espojar-se no chão, a explicar os temas de forma divertida e no seu carregadíssimo sotaque do Porto e até a fazer crowdsurfing. Provando que não é preciso uma plateia esgotada ou cheia de gente para ser levado em braços.

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