Em Raindrops ficamos sem perceber se as gotas que vão pontilhando o nosso imaginário são fruto da condensação exterior, ou quiçá, da tensão sentimental que ao longo do disco nos vai marejando o horizonte.
O que é que o Inverno tem a ver com a música? Ou, se quisermos inverter o cânone, pode a música definir uma estação do ano? Será possível existir uma banda sonora para um trimestre reconhecido pela sua dura e fria aspereza? Um amparo para os dias mais cinzentos das semanas que persistem em não nos trazer novidades. Semanas em que a casa substitui a praia, ou o sofá as noites mornas de esplanada social. Raindrops é um daqueles “affairs” que nos leva, do princípio ao fim, embalados na sua subtil misteriosidade. O minimalismo arredondado das composições de Volodja Brodsky liberta-nos de pormenores supérfluos, e encarreira-nos o pensamento para o infinito emudecido. Sugestionados pelos títulos das músicas, voluntariamente contaminados pela pureza quase pueril da linguagem do artista, os ouvintes encarregam-se de criar as suas próprias narrativas, suportadas em paisagens lentamente erigidas por notas de piano e ecos esporádicos que se vão libertando do reverberante vibrafone.
Neste segundo álbum de originais, o compositor e pianista estónio abandona por completo as máquinas. Opta em vez disso por um cenário acústico, suspenso por um leque de composições encantadoras e absorventes.
A abrir o disco (que num primeiro embate facilmente pode cair na categoria de clássica contemporânea que nos faz chorar), temos o onírico “Sleepy Hollow”. Cinco minutos de arrasto num ternurento acordar para o que Raindrops nos tem para mostrar. Segue-se uma valsa, dança a dois em compasso ternário. Neste tema, Brodsky recorda-nos que depois da tempestade vem sempre a clareza da resolução. Pouco depois embrenhamo-nos no impressioinismo abstracto de “Yellow in Red”. Uma pintura sobre teclas, a fazer lembrar as memoráveis telas bicolores de Mark Rothko. Uma homenagem premeditada ou apenas uma coincidência conceptual? Em “Snowfall Serenade” a par com “Fogbound Streets of Maardu” há qualquer coisa de raveliano na estrutura rítmica, cheia de riqueza harmónica e com um equilíbrio primoroso entre o impressionismo e o neoclassicismo. Pelo meio fica a paródia pós-clássica “Breakfast Martini”, em tom jocoso e galhofeiro.
Atingimos o fim desta obra, extraordinariamente bem idealizada por Volodja Brodsky, com o tema de desfecho que dá nome ao álbum. E que bem que sabe ouvir a chuva lá fora quando estamos salvaguardados pela couraça do nosso espaço. Que vontade nos dá de chorar de alegria e emoção ao ouvir “Raindrops” e sabermos que somos uns enormíssimos filhos da puta sortudos, que temos o privilégio de podermos sofrer com as nossas dores existenciais que nada têm que ver com fome ou com frio. Que temos a possibilidade de fruir do privilégio de chorar de emoção por coisas tão valiosas e superiores como o amor (e que infelizmente também temos a obrigação de chorar pelos que, em dia algum, irão saber o que é ser inteiro).
A beleza da música assenta na capacidade de atravessar todo e qualquer tipo de ideologia. A massa crítica não se constrói somente através de ensaios universais e análises conjunturais especializadas. A noção do belo e do horror, do respeito e da carnificina, da dignidade ou da extinção, também se pode achar nos discos que ouvimos e que tão bem nutrem o nosso humanismo. Sugerir que a liberdade de escolha pode representar uma ameaça à nossa cultura será, porventura, um acto de degradação do poder. Nem tudo tem que ser erudito certamente. Mas nem toda a música tem que ser alegre e positiva. Há discos que, apesar de simplesmente melancólicos, nos ajudam a relativizar com distinta eficácia, o emaranhado de estímulos que nos vão ensopando o existir. Discos que acolhem certa angústia que por vezes precisa apenas de verter umas pingas para voltar a dar-nos espaço para regenerarmos a fibra de viver. Acredito que Raindrops é um exemplo categórico desse mesmo processo. Um disco amplamente habilitado a ajudar-nos nesse espinhoso ofício – o de nos distrair, por meio do coração, dos embaraços que nos levam a pensar porque raio é que isto de ser humano tanto dói.