O concerto de Vaiapraia no B.Leza foi rápido, suado, caótico e comunal, permitindo-nos confirmar que Alegria Terminal soa tão bem ao vivo como em disco.
É seguro dizer que, embora a música de Vaiapraia já ande por aí há bastante tempo (1755 é de 2016), 2025 foi para a banda um ano de viragem. À boleia de Alegria Terminal, o seu mais recente trabalho, Vaiapraia andou um pouco por toda a parte, sendo amplamente comentado e elogiado nos mais diversos meios, e tendo até figurado em lugares cimeiros da maior parte das listas de melhores álbuns nacionais do ano (encabeçou a nossa). Por tudo isto, e por terem sido vários os concerto que deu com a banda com quem gravou o disco (Chica, April Marmara e Ana Farinha), é que é uma parvoíce que eu tenha esperado até 2026 para ouvir as novas canções de Rodrigo Vaiapraia ao vivo, mas a vida tem destas coisas, mais vale tarde que nunca. Frases cliché à parte, a curiosidade era muita e foi com entusiasmo que rumei ao B.Leza na passada quinta-feira pascal.
Depois de Nëss ter aquecido a plateia com o seu set acústico, onde a potência da sua voz acrescentou à emoção das bonitas canções cantadas em inglês, não tivemos de esperar muito até subirem ao palco as estrelas da noite. “Fogo Fera”, do disco anterior, marcou imediatamente aquele que seria o ritmo do concerto – rápido, suado, caótico, comunal.
A setlist foi longa, composta maioritariamente por músicas de Alegria Terminal e de 100% Carisma, embora o concerto não tenha durado mais de 1 hora. Focados no que estavam ali para fazer, a banda não perdeu grande tempo entre canções, não tendo, por vezes, guardado sequer espaço para palmas. Porém, não foi por isso que o público deixou de mostrar o seu apreço pelo espetáculo. Quer fossem canções “novas” ou canções “antigas”, foi bonito ver que eram todas cantadas quase integralmente pela audiência devota, que, à terceira canção do alinhamento, “Wai Wai”, já tinha aberto um mosh. O entusiasmo manteve-se em altas daí para a frente e dava ideia que a postura do vocalista mudava à medida que este se alimentava da energia da plateia, mostrando-se cada vez mais desafiador e mais flirty. Já a banda esteve impecável do princípio ao fim, acrescentado à performance do seu front-man com um acompanhamento instrumental irrepreensível. “Kolmi”, com Rodrigo nos teclados, “Corta-Unhas”, a canção triste, ou “Eu Quero, Eu Vou”, todas de Alegria Terminal, soaram ótimas mas a apoteose do caos punk deu-se em “Rabo” ou em “Tenho Fome”, dois momentos que encapsularam bem a grande comunhão que se viveu naquela noite no B.Leza.
Já no encore, durante a interpretação de “Ponte S”, Vaiapraia pegou só com um braço no seu teclado Casio e, já pronto para ir embora, despediu-se com um singelo “Ela disse, ela disse, ela disse xau”. Num concerto que foi muito direto ao assunto e sem espaço ou vontade para grandes sentimentalismos, seria estranho se terminasse de outra forma. O trabalho foi feito, e bem feito.
Vaiapraia e as suas companheiras não nos surpreenderam minimamente porque já íamos à espera de uma grande performance – e foi uma grande performance que tivemos. Já estávamos à espera do som excelente, já estávamos à espera da fantástica sensação de nos perdemos num mosh a cantar uma canção em coro com estranhos que deixam de ser estranhos momentaneamente, e já estávamos à espera de esquecer ali, só por um bocadinho, os problemas do dia-a-dia (e não têm sido dias fáceis), enquanto purgávamos com Vaiapraia os seus. Como disse Filipe Sambado num concerto seu a que assisti dois dias depois, “estamos aqui no pior dos tempos a celebrar pelas melhores razões”. Diria que bons álbuns serão sempre boas razões para sair de casa e celebrar, mesmo que só seja passado quase um ano.
Fotografias por Francisco Fidalgo
































