Hyperpop: um novo género cuja melhor tradução seria “pop em esteróides”, um carnaval de bleeps e blops minuciosamente bem produzidos, que tem o mesmo efeito no corpo humano que teriam cinco cafés cheios, com cinco colheres de açúcar cada. Eis os underscores.
“O que é que gostas de ouvir?”
A pergunta que qualquer um de nós melómanos anseia ver sair de todas as bocas com que se depara diariamente. Ouvir a própria pergunta é, aliás, a resposta mais acertada para a própria pergunta.
Todos desejamos que alguém nos permita discorrer horas a fio sobre as nossas opiniões, escritas e reescritas, acerca da nossa banda favorita. Ou listar todas as músicas novas que encontrámos nos últimos três meses. Ou fazer justiça às trezentas bandas que acreditamos veemente não terem o sucesso comercial que deveriam ter. Mas quando esse tempo de antena nos chega, paralisamos ao ganharmos consciência de toda a informação que queremos despejar em cima da inocente pessoa que à nossa frente espera por uma resposta concisa e que não despenda de mais de um minuto. Por isso, disparamos a típica e insípida: “Oiço de tudo.” O que nunca é verdade.
Ninguém ouve realmente “de tudo”. Ouvimos bastante música, pode ser. Mas essa variedade tem sempre ângulos mortos. “De tudo” significa na grande maioria “rock de várias décadas”. E como de Pink Floyd a Pearl Jam ainda vai um longo caminho a variedade insufla mais do que devia.
Só que, de vez em quando, numa lua azul, chega-nos algo que é mesmo do lado de fora da vedação. Algo que nos aproxima, ainda que muito ligeiramente, dessa abismal e leviana resposta. Considero underscores uma dessas artistas, que transformam o que seria à partida uma mentira pegada numa mentira apenas.
Underscores só na sociedade de hoje poderia chegar até mim. Terei de admitir publicamente: os chatos dos anúncios do Spotify acertaram. Por fim, o constante bombardeamento de artistas e álbuns que a aplicação com uma corajosa audácia coloca no meu feed acabou por ter um vitorioso resultado. Underscores, contra todas as odes, foi uma artista que suscitou o meu interesse.
Deu-me a conhecer o conceito de hyperpop. Um novo género cuja melhor tradução seria “pop em esteróides”. Um carnaval de bleeps e blops minuciosamente bem produzidos, que tem o mesmo efeito no corpo humano que teriam cinco cafés cheios com cinco colheres de açúcar cada um – conselho do SNS, se ouvirem hyperpop não bebam café e vice-versa. Não há regras para a produção deste tipo de música, o único requisito seria ser o mais imprevisível possível. Isso e ser estupendamente dançável.
Para quem estiver a achar que isto, lá no fundo, é só uma estridente mixórdia de temáticas e mais vale ouvir o apito do frigorífico com uma batida por trás, aviso que está redondamente enganado. As canções de “U” estão tão bem arquitetadas como muitas capelas renascentistas em Itália. Em ambas, a beleza reside na exuberância pensada, no caos controlado. Como também na sua natureza dupla de humano\máquina. Underscores mistura muitos instrumentos analógicos e coros harmonizados com a fundação eletrónica do hyperpop (mais patente em “Do It”) da mesma forma que capelas renascentistas incorporam uma precisão maquinal nos seus traços que servem a representação de imagens humanas. E nas duas surge sempre a mesma pergunta: “Mas como é que alguém faz isto?”.
Tento com isto irromper cordialmente nos vossos circuitos musicais como o Spotify fez, depois de incansáveis tentativas, com o meu. Abrir o vosso beco sonoro, para que da próxima vez que a esperada pergunta surgir e vos sair outra vez a mesma falaciosa resposta que possam ao menos dar um exemplo que a torne credível.