Seria muito difícil antecipar em 1986, quer pelo percurso de sucesso até aí, quer pela vitalidade criativa de um disco como este “True Stories”, que apenas dois anos depois os Talking Heads iriam lançar o último álbum (“Naked”), oficializando a separação em 1991, depois de um derradeiro single, intitulado “Sax and Violins”.
Vinham de se ter formado como banda em 1975. David Byrne (que nasceu na Escócia), Chris Frantz (baterista) e Tina Weymouth (baixista e futura mulher de Chris) conheceram-se na Rhode Island School of Design, enquanto Jerry Harrison (guitarrista/teclista) os conheceu quando ainda estudava em Harvard nas áreas de Arquitetura e Design. Representaram uma via imaginativa e alternativa num contexto de pós-punk rumo à new wave e o seu estilo continua a influenciar outros artistas.
“Wild, Wild Life”, que abre o lado B do álbum, é o tema que conquistou maior evidência e o divertido vídeo – em que, por exemplo, Jerry Harrison aparece a parodiar Billy Idol, Kid Creole, Prince e até a personagem de Ralph Macchio no filme “Karate Kid” – seria mesmo eleito “Best Group Video” nos prémios MTV de 1987.
Também no lado B está “Radio Head” (canção sobre perceções e a forma como se recebe informação, vejam lá bem como está tão atual!) que, muitos anos mais tarde, iria servir como nome da marcante banda liderada por Thom Yorke.
“Love for Sale” (quase um hino e com um ritmo imparável), “Puzzlin’ Evidence” (profética quanto à mimetização entre meios de comunicação), “Hey Now” (uma espécie de reggae cantado por um coro infantil no filme – já lá vamos…) e “Papa Legba” (descrição de uma cerimónia vudu) compõem o lado A, enquanto “Dream Operator” (alusão metafórica ao subconsciente como força que guia os sonhos de cada um), “People Like Us” (canção em tons de country que, no filme, é interpretada por John Goodman) e “City of Dreams” (uma balada triunfal, assim mesmo, contradição nos termos e estranheza como tantas vezes cantaram os Talking Heads) se juntam às duas canções já referidas no lado B.
Não sendo um decalque musical do álbum homónimo (o disco com a banda sonora original só foi lançado em 2018), “True Stories” foi também, nesse ano de 1986, o primeiro filme realizado pelo vocalista dos Talking Heads, que já tinha a experiência de dirigir alguns dos video clips da banda.
Entrevistado por David Letterman no famoso programa, então na NBC, Byrne explica que se trata de “uma série de pequenas histórias verídicas, reunidas a partir de tablóides, todas numa pequena cidade imaginária [Virgil, no Texas] e com música associada”. Ele próprio é o narrador e também desfila perante as câmaras, com um chapéu escuro de cowboy, numa película em que participa, por exemplo, o ator John Goodman. No fundo, um grupo de pessoas excêntricas encontra-se na tal cidade para assinalar o desfile dos 150 anos da independência do Estado e para um concurso de talentos.
Mas, nesse programa, David Byrne começa logo por sobressair como capa da revista TIME de 27 de outubro de 1986, com design concebido pelo próprio músico, sob o título “Rock’s Renaissance Man” e com a lista dos seus múltiplos talentos: “Singer; Composer; Lyricist; Guitarist; Film Director; Writer; Actor; Video artist; Designer; Photographer”.
Como disse John Goodman, referindo-se a Byrne e citado pela TIME, “esse tipo usa um dicionário diferente”. É a síntese perfeita de um génio, aplicada não só como líder criativo do grupo, mas ao longo das décadas seguintes num peculiar trajeto a solo. Essa, porém, já é outra história.