Dois músicos, com muito em comum, apresentaram-se no palco do Maria Matos na passada quarta-feira. Com as suas inseguranças em relação à conversa e às canções, Surma e Tomara mostraram que a sua escolha para o ciclo “Conta-me Uma Canção” não podia estar mais correcta.
Poderíamos dizer que Surma (Débora Umbelino) e Tomara (Filipe C. Monteiro) não começaram a segunda noite de concertos de “Conta-me Uma Canção” da melhor forma. Se o conceito é colocar artistas em palco para uma conversa sobre o processo criativo na escrita de canções, o duo apresentou-se pouco comunicativo e criador de canções pouco convencionais, mas, permitam-me discordar.
Os dois introvertidos conseguiram manter uma conversa que agradou a todos na sala (com direito a sessão de Q&A), levando o assunto mais além do que a simples composição de canções. Abordaram-se demónios internos, a dificuldade em partilhar em público uma coisa tão íntima como uma canção, falou-se sobre o síndrome de impostor na criação artística, e na importância da estética na música. A canção “Land at the Bottom of the Sea“, de Tomara, deu-nos uma ideia de como os cenários influem na concepção musical, tornando-a numa espécie de banda sonora para as imagens transmitidas em palco.
As canções também estiveram lá, algumas mais estandardizadas que outras, é certo, até porque a banda que se formou em palco (os “Surmara” ou os “Turma”, nomes sugeridos por Filipe) consideram-se escritores de canções, mas não cantautores, como alguns artistas deste cartaz de “Conta-me Uma Canção”. Muitas vezes durante a noite, o par em palco falou na música folk como referência, e apesar de algumas canções terem audivelmente essa influência, muitas delas apresentam outros géneros, ora mais “electrónicos”, em que quase sentimos vontade de levantar da cadeira e dançar, ora mais “conceptuais” muito à conta dos instrumentais apresentados. Mas a verdade é que as canções lhes estão no sangue como conseguimos comprovar com a versão de “Roslyn”, tema interpretado por Bon Iver & St. Vincent.
No final foram mais de duas horas de conversas e canções, daqueles que ao início nos engaram com falsa modéstia. O concerto até poderia ter tido direito a encore, mas Surma deixou o aviso que não tinham mais músicas ensaiadas, assim se ligaram as luzes da sala e o público saiu entre aplausos e sorrisos.
Fotografias: Rui Gato










