Um disco urgente, negro e nocturno, com os ecos do pós-punk a interrogarem-nos sobre os curtos-circuitos das relações humanas no século XXI.
Os Suede são um caso de estudo. Uma das bandas de topo do britpop dos anos 90, consumiram-se e pararam, regressaram em 2010 e iniciaram uma espécie de segunda vida que não fica atrás, em termos de vitalidade, da primeira.
Antidepressants é o 10º álbum dos londrinos, marcando um ponto simbólico: os Suede já têm agora tantos discos desta fase contemporânea como da sua fase imperial, há tanto tempo. O que é difícil de acreditar é que uma banda com tantos sucessos lá para trás e um legado que poderia ser facilmente espremido em digressões de nostalgia tenha escolhido um caminho bem diferente: discos novos, concertos com forte peso dos temas recentes e, acima de tudo, um gosto pelo risco e pela exploração que não trai a sua idade.
Brett Anderson e companhia têm falado deste novíssimo Antidepressants como uma espécie de segundo volume de uma trilogia iniciada com o também óptimo Autofiction, de 2022. E explicam, em termos de referência: se Autofiction era o disco punk dos Suede, este último é o seu disco mais pós-punk. É claro que isto vale o que vale. Já os ouvimos (e a muitas outras bandas) dizer que o seu som vai para aqui ou vai para ali, mas o reflexo disso são pormenores estéticos, interessantes mas não necessariamente significativos.
Em grupos que têm um som e um estilo tão característicos, estes pós de influências são mais guias de intenções do que resultados palpáveis, e também em Antidepressants isso acontece. Desde a primeira nota, estamos inegavelmente em território Suede. Por outro lado, os temas de inadequação, frustração e desejo sempre foram centrais para o lirismo de Brett Anderson, e isso mantém-se. A diferença é que, há 30 anos, esse estado de angústia resultava numa redentora noite de excessos e más decisões; agora, a falta de ligação humana é feita de isolamento, no enorme e sobrelotado deserto humano chamado redes sociais. Aí e nos ansiolíticos, claro.
Antidepressants é, como a própria capa indica, um disco negro. Desde o tema das canções à sonoridade propulsora, como um monolito imponente e irredutível, que tudo domina. Sobre pós-punk, enfim, há os tais sinais aqui e ali: o baixo totalmente Peter Hook de “Trance State”, a voz falada a la Dry Cleaning de “Antidepressants”, passando pela lembrança dos Cure na lenta e arrastada faixa final, “Life is endless, life is a moment”, ou pelo gelo de alguns dos discretos sintetizadores.
Mas este é sobretudo um disco em que a guitarra cortante e o baixo ganham presença, resultando num retrato urgente, frio e negro das relações humanas em curto-circuito permanente, como se ouve logo no arranque do disco, com uma máquina a alternar duas palavras: “connected/disconnected”.
Como sucede em tantos discos dos Suede, a banda carrega a carne mais suculenta logo à partida. “Disintegrate”, “Dancing with the europeans” e a faixa-título constituem uma trilogia fortíssima. “Sweet Kid” e, sobretudo, a excelente e desesperada “The sound and the summer”, dão muito boa sequência, compondo quase toda a primeira metade do risco em alto nível. Curiosamente, é nas “baladas” que o disco vem um pouco abaixo em termos de qualidade, o que não deixa de ser surpreendente tendo em atenção ser esse um registo no qual a banda já demonstrou ser muito forte. Neste campo, a excepção é “June Rain”, que se aguenta bem.
No seu conjunto, Antidepressants é um disco muito bem conseguido, um triunfo estético e imaculadamente coerente, com o gelo e a escuridão a serem complementados por algo que os Suede sempre tiveram e que faz toda a diferença: o seu profundo sentido melódico, a noção de que uma canção deve interpelar-nos e mexer connosco.
E um exemplo de como é possível uma banda, ao décimo disco e com mais de 30 anos em cima, continuar a soar urgente, ambiciosa e sem receio de continuar a desbravar caminho.