Sentia-se no ar adrenalina e depressão, nas ondas de um certo mar, viveuse um concertão. Aliás, dois. Prometo falar deles a seguir e parar com estas referências a várias portugalidades que não são para aqui chamadas.
Sabe-se que se avizinha um concerto muito bem composto quando a plateia já está meio lotada assim que o artista de abertura mete os seus dedos dos pés no primeiro metro quadrado do palco principal. E foi exatamente isso que aconteceu (pausa para ir ao calendário) no dia 16 de outubro, no rés-do-chão da Casa Capitão, onde uma calorosa multidão cumprimentou, aplaudiu, chorou e se rendeu à voz angelical e frágil de Malena Zavala pela segunda vez em 2026. E, se todos os concertos desta cantautora forem assim tão comoventes, e eu acho que a resposta é óbvia, por favor que se crie um livre passe para ela vir até Lisboa para também nós nos passarmos tão livremente com ela.
Não tenham medo de se levar pelo trava-linguas manhoso que teclei aqui em cima, porque é o vosso coração que fica verdadeiramente atado num nó de marinheiro enquanto Zavala vos embala, de guitarra em mão, por entre várias composições irrequietamente belas como “Lost in the Depths of the Andes” e “Broken by Two”. A própria textura argentina, que permeia uma boa parte da identidade de Malena Zavala, está constantemente enviuzada no solo londrino que pisa no dia a dia. Um toque de smog melancólico que vem de terras de Sua Majestade e de todas as suas sonoridades mais etéreas.
Sei que já estamos quase a abrir presentes e a roer passas, mas avisem-me se ainda houver uma terceira visita da Malena à Casa Capitão, em 2026. Se não houver, tudo bem. Cá ficarei num cantinho, a perguntar a mim próprio se o ano poderá recomeçar para a ver mais vezes em palco. Uma pista: foi uma piscadela de olho ao título do seu álbum mais recente, que poderão ouvir ora numa versão mais completa ora com arranjos acústicos, como já tem sido tradição da artista.
E agora, o que vem a seguir para o deleite de muitos?
São os gritos de quem está para lá de emocionado, mesmo na fila da frente, para receber Strawberry Guy e a sua banda, a sua manicure ireepreensivelmente vermelha e os seus cabelos mais dourados e encaracolados que qualquer menina num conto de Jean de la Fontaine. É capaz de não ter sido ele a escrever o conto em que estou a pensar, mas o nome é francês e isso faz-me lembrar numa boa fatia de tarte aux fraises. Eu sabia que não devia ter começado a escrever algo sobre alguém que tem fruta no nome quando mal almocei. Mas juro que não fui só eu. Havia malta a oferecer morangos ao próprio enquanto se deliciava com as suas músicas, tanto mais antigas como as do seu álbum mais recente – Give Me a Dream. O talentoso galês não só comeu os ditos morangos, como respondeu a perguntas e tagarelou com o público, como tirou fotografias de duas máquinas diferentes, como nos elogiou, como contou histórias de ter atuado num café em Lisboa para dez pessoas, como se emocionou pelo dia não ter corrido muito bem, como fez aquela gente toda aplaudi-lo de forma sentida, como confessou estar cansado e no fim da maior digressão da sua vida, como tocou com a sua banda, como tocou a solo, como tocou só com a outra teclista em palco, como fez tantas coisas em apenas 90 minutos que não me deixa acabar este parágrafo de forma sã e sem eu questionar a minha sanidade mental e agora peço-vos um desconto para respirar fundo e finalmente…
… acabar este texto ao dizer que um dia quero sentir uma pequena fatia de todo o amor que Alexander Morgan Stephens sentiu na Casa Capitão.
E para quem não foi ao concerto, tomem lá morangos!
Fotografias: Felipe Kido




















