O som de uma banda que quer descobrir o mundo mas que ainda mantém a personalidade peculiar que a fez especial.
Os Belle and Sebastian entraram no novo século numa fase particularmente crítica da banda. Depois de três discos bem recebidos pela crítica e progressivamente mais conhecidos por parte do público, estava no ar a dúvida sobre o que, afinal, poderia este grupo vir a ser: um segredo estimado e bem guardado ou uma banda capaz de correr o mundo sob o aplauso do mainstream?
Voltando um pouco atrás, a esses três discos iniciais, a matriz pouco havia mexido, estruturalmente: pop discreto, bonito, contido, quase doméstico, servido por letras instrospectivas que faziam sonhar os adolescentes (ou apenas adolescentes emocionais) fechados no quarto, demasiado sensíveis para enfrentar o mundo cruel. Emocionalmente, eram discos que cumpriam a função que quase década e meia antes havia feito dos Smiths uma das maiores bandas britânicas.
The Boy with the Arab Strap era o terceiro disco mas foi o primeiro a atravessar fronteiras, pelo menos foi o primeiro realmente a causar impacto junto da maioria dos melómanos portugueses mais atentos. Daí à descoberta dos dois também óptimos álbuns anteriores foi um passinho. Ainda assim, o “disco verde” já trazia, aqui e ali, sinais de que os rapazes e raparigas de Glasgow também sabiam dançar e estavam cheios de vontade de o fazer.
A prova do algodão viria no disco seguinte, este Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant, editado em 2000, e que mostra uma banda à procura de crescer. O disco soa menos caseiro, menos ingénuo, mais profissional, mais estudado e mais cheio, em geral.
O próprio Stuart Murdoch admitiu que foi um trabalho mais difícil de gravar também por isso. Mais músicos, temas mais complexos e a procura de um som mais polido que pudesse ajudar o grupo a continuar a crescer. Mas aquilo que melhor caracteriza este disco é a sua personalidade transitória, como uma ponte entre o que vinha antes e o que viria depois, e que dura até aos dias de hoje. Por um lado, está lá tudo aquilo que fizera dos Belle and Sebastian uma banda muito querida pelos seus relativamente poucos fãs; por outro, há uma eficiência pop cada vez mais refinada e temas mais trabalhados em estúdio e com arranjos que buscam (com sucesso) a eficácia emocional.
Não pensemos, no entanto, que este é um disco pop comercial a todo o custo, longe disso. Aliás, um dos poucos defeitos que lhe encontramos é que, na ânsia de desbravar novos terrenos para a sementeira futura, Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant não consiga ter a mesma coerência estética que os discos anteriores. Para isso também contribui a chatice da democracia interna, com mais membros do grupo assumirem a voz principal em várias músicas.
“Don’t leave the light on baby”, por exemplo, é um quase soul com umas cordas a la Gainsbourg; “The wrong girl” podia ser uma canção de Roy Orbison e é sobretudo salva pelas cordas e pelos sopros; “Nice day for a sulk”, que ganha o prémio de melhor título de canção do disco, pega num exercício quase de Burt Bacharach; “Women’s realm” faz o grupo revelar a sua ambição de arranjos com um exercício a lembrar os temas épico-pop dos também muito recomendáveis Divine Comedy; já “Family tree”, conduzida pela melodiosa voz da subvalorizada Isobel Campbell, precede por uma década a delicadeza que viríamos a aplaudir em Melody’s Echo Chamber.
Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant é o trabalho de uma banda a espraiar-se, e talvez por isso tenha sido com ele que a banda, pela primeira vez, fez algumas ondas no difícil mercado norte-americano. Ainda assim, não há aqui rupturas sérias e a marca dos Belle and Sebastian é facilmente identificável na esmagadora maioria dos temas. Não sendo tão coeso como a santíssima trindade dos discos anteriores, é um álbum que fica bem na sua companhia e que deixa pistas para um alargamento musical que viria a dar frutos mais tarde. Mesmo que isso possa ter desiludido o meu eu adolescente, deitado no quarto comungando dos temas caseiros de inadequação e dúvida, a banda mudaria ou estagnaria. Este é um disco que, de certa forma, está no limiar dessa caminhada.
E que, tantos anos depois, não envelheceu nada e se continua a escutar com muito prazer.