A diversidade no cartaz do Sonic Blast continua a aprimorar-se… o segredo está na qualidade dos ingredientes… e no molho!
Eu juro que este trocadilho não serve para vingar os locais pelo facto do vocalista dos Viagra Boys (Sebastian Murphy) se ter referido ao Porto umas tantas vezes durante o concerto. É mesmo uma tentativa de reforçar a ideia de que um dia na Praia da Duna dos Caldeirões não se reduz ao acumular de fuzz e distorção, e de que é essa mistura e a respetiva consistência que tornam este festival tão particular
A lotação para o primeiro dia da edição de 2024 e julgando pela audiência em frente do palco, os grandes responsáveis terão sido os Graveyard e, principalmente, os Viagra Boys. Não sei se será por ter criado grandes expectativas ou se será apenas do meu mau feitio, mas não foram estas as minhas atuações preferidas do dia. A qualidade está lá, sem dúvida! São ingredientes excelentes e a verdade é que a grande mole humana sorveu ambos os sets com deleite.

Sim… é mesmo o meu feitio a falar, portanto viremos as coisas ao contrário. O melhor veio no fim… o molho pesado, denso, picante e estimulante desta francesinha foi pacientemente preparado durante todo o dia pelos Tons. E, com a breca, que poder emana este quarteto transalpino. Doom, Sludge, jogo de vozes e muito bom humor… tudo na dose certa, nos tempos certos!
O segundo destaque do dia vai para os nossos Máquina, que continuam apostados em levar as suas elaboradas, mas super orgânicas, composições a todos os palcos que encontrarem por este mundo fora. Toquem para uma sala com 50 pessoas ou para um festival com milhares, a entrega é a mesma e a resposta do público também – a libertação do corpo e da mente numa dança frenética.

Do outro extremo do planeta vieram os Neo Zelandeses Earth Tongue, um duo que faz lembrar os americanos Quasi …, mas em esteróides! Psicadelismo, space rock, garage temperados com agressividade metálica e aqui e ali adocicados com tonalidades pop. Gussie Larkin é uma front woman de respeito e a sua guitarra transpira fuzz e personalidade, mas o segredo parece estar nas dinâmicas vocais desenvolvidas com o baterista Ezra Simons. Great Haunting saiu há pouco mais de um mês. Vão espreitar!
E por falar em vozes, ou melhor, por falar numa dupla fantástica de vozes, viajemos até ao Canadá à boleia dos Black Mountain … e sim, é um chavão, mas viajar foi o que fiz ao som do groove encastrado no Blues psicadélico … isso e ao passado de Wilderness Heart (de 2010) que continua a ser um dos meus discos preferidos de sempre.

Dos aromas da nostalgia, passemos para a atualidade. A dupla britânica Maruja (Manchester) e Enola Gay (Belfast) trouxe-nos o som do momento. Pós punk politicamente engajado, tingido a noise, punk, algum hip-hop (sobretudo nos registos vocais) e apontamentos jazzísticos – no caso dos primeiros. Intensidade, ritmo e ganas, muitas ganas … marcaram as atuações destas jovens bandas cujo percurso interessa seguir.
Margarita Witch Cult e High Reaper aproximaram-se mais das sonoridades mais comuns na história do festival. Stoner psicadélico com tons de doom pode até parecer (para quem está de fora) a carne com batatas do Sonic Blast … mas, como já repetido, os ingredientes são da melhor qualidade e foram tratados da melhor forma possível.
No início da sua tour pelo continente europeu, os americanos Poison Ruïn trouxeram-nos o seu Punk Rock de veia mais tradicional que teve o condão de fazer mexer o público na ressaca dos concertos das bandas cabeça de cartaz.
Fechado o ciclo, resta-nos descansar um pouco para podermos aproveitar ao máximo o segundo dia de caldeirão blástico.


















































