Um festival que a idade é incapaz de impedir. A habitual celebração do aniversário de Luís Salgado, “O Salgado Faz Anos… Fest!”, encheu o Maus Hábitos de música variada, entusiasmante e maioritariamente portuguesa.
Entre quatro palcos e 17 atuações, acompanhamos a noite dedicada ao programador cultural, focando-nos nos espetáculos das bandas nacionais emergentes que ajudaram a fazer a festa noite fora.
O último concerto no palco Super Bock antes do DJ Set de A Boy Named Sue pertenceu aos mais amadurecidos Them Flying Monkeys, o quinteto de Sintra que lançou, para o Altamont, um dos melhores discos nacionais de 2025, Best Behavior. Essa primazia manifestou-se num público paciente, quase imóvel, que esperou o arranque de um concerto ligeiramente atrasado com fervor. Foi eclético do início ao fim, com a discografia já bem recheada da banda de rock alternativo e post punk aliada à surpresa da estreia de uma canção ainda não lançada. O último single, “Big Boy”, e a versão de “Les Gens Sont Fous, Les Temps Sont Flous” foram dos temas mais apreciados pelo público, apesar da energia ter sido constante. Luís Judícibus, voz e guitarra, pareceu concordar, admitindo que “É muito bonito ver assim muita gente”, e mais tarde até levando essa gratidão mais longe: “Não costumo fazer isto, mas estas são as pessoas de quem mais gosto”, afirmou apontando para os colegas, encerrando assim um espetáculo memorável com um momento de união entre amigos. Afinal, isto é uma festa de aniversário.
Foi com Esquerda, banda indie rock leiriense, que o palco “O Salgado”, na sala de espetáculos do Maus Hábitos, foi inaugurado. O quarteto começou com uma sala curiosa, pela metade, o que não os impediu de fazer o chão tremer desde o início. A voz sempre firme de Carolina Chora, vocalista, cativou um público atento que aderiu sem esforço às letras diretas e provocadoras das canções. “Sangue Menstrual”, o tema de estreia da banda, destacou-se por marcar o início de uma segunda parte mais enérgica do concerto, já com um público mais completo e bem mais solto (contando até com o próprio Salgado a curtir de soslaio, ao fundo da sala). Apresentando canções impenitentes e reivindicativas que abordam temas variados, desde a misoginia à emergência do fascismo (este último capaz de arrancar uns “Não Passarão!” da plateia), os Esquerda deram um bom concerto, contrariando todas as dificuldades: “Em Leiria as coisas não têm estado muito fáceis, até ontem não sabíamos uns dos outros”, confessou Carolina. Nem a tempestade os parou.
No palco Super Bock tinham acabado de atuar os Cat Soup quando fomos ver o gig de Alomorfia, banda punk oriunda do Porto/Braga que se preparava para dar um dos concertos mais catárticos e entusiasmantes da noite. Entre temas do EP de estreia, Devaneio(s), lançado no ano passado, os Alomorfia dominaram o palco, e não só: tomaram conta de todo o espaço. Dançaram por todo o lado, sentiram a música existencialista livremente e, no meio disto tudo, puxaram muito pelo público: “Iam-me deixar cair no chão, acham bem?”, brincaram, depois de uma primeira tentativa de crowdsurfing. Na verdade, ninguém deixou cair ninguém. Ao som da mistura caótica e intencional de punk, post punk e noise rock, a performance cativante e com um toque teatral da banda do norte conquistou um público dançante e teve direito a mosh pit, como é óbvio.
Ainda no mesmo palco, e após a atuação dos OKA, foi a vez dos Scatter, banda punk oriunda do Porto, de protagonizar aquele que foi o concerto mais interativo da noite. Desde os primeiros acordes, o som bruto e potente criou uma ligação quase imediata com uma plateia, por aquela altura, já totalmente aquecida. Os Scatter já não são novidade no Maus, e isso nota-se no à vontade com o público: transformaram o concerto numa reunião de amigos de longa data, um registo totalmente descontraído. Houve chamadas de pessoal ao palco, espaço para declarações mais políticas (com vários apelos contra o pacote laboral) e muitos momentos engraçados. “Quando a gente falha e tal… É na boa né?”, perguntaram. A resposta foi, naturalmente, calorosa, e a música arrancou novamente, ainda mais forte.
O espetáculo dos Eufémia, o único no “palco” Mupi Gallery e o primeiro de todo o cartaz, difere bastante da maioria daquilo que acompanhamos neste SFAF. A música mais calma, ainda que divertida, aqueceu uma pequena plateia que, ainda ocupada com cumprimentar conhecidos e pedir bebidas no bar, se foi deixando encantar com o que a dupla tinha para oferecer. Tímidos mas muito bem apoiados, tocaram instrumentais variados, quase tudo temas originais. “Tentamos fazer um tango mas não sabemos fazer isto muito bem”, diziam, mas safaram-se lindamente. A certa altura convidaram o público para participar, distribuindo pandeiretas, e aí a piada passou a ser ver os escolhidos a tentar adivinhar que ritmo os esperava a seguir. Foi o início de uma boa (e longa) noite.
Pelo palco “O Salgado” passaram ainda grupos já mais conhecidos, como Marquise, Pluto e os japoneses Green Milk From The Planet Orange. Máquina encerrou esse palco por volta das três da manhã com um DJ Set que coincidiu com o do palco Super Bock. Já no Stockhausen Vivarium atuaram, por ordem, Redoma, Inês Gouveia e Frederica Campos, Aquele Gajo Que Vem Sempre, IBSXJAUR e miaw.
Texto: Maria Inês Ferreira || Fotografias: Gonçalo Nogueira










































