Entre as brumas dos Açores, um disco carregado de histórias e de vida.
Ainda o ano mal começava e surgia um disco que prometia distinguir-se dos demais. Romeu Bairos, como o próprio se classifica, é um “açoriano doente”, que faz das origens não apenas geográficas mas também familiares material de inspiração e de vida, mesmo que hoje em dia não resida no arquipélago. E, ao ouvirmos pela primeira vez este Romê das Fürnas, é impossível escapar à inicial estranheza desse sotaque tão marcado e ao mesmo tempo tão sedutor e enigmático.
Romeu andou pelo The Voice, entrou na série Rabo de Peixe, foi ao Festival da Canção, gravou um cover de David Bruno. Mas não deixa de sentir-se que é aqui, de forma mais clara, que se expressa ele próprio, no seu território. Aqui e na fabulosa versão de “Eu não vou chorar”, original de Sandro G mas que aqui nos desfaz completamente.
Para o disco de estreia, entrou em cena B Fachada como produtor, com quem Romeu admite, em entrevista imperdível à Mesa de Mistura, andou bastante às turras. Mas o resultado é muito recompensador. São apenas sete temas, três tradicionais açorianos e quatro originais de Bairos.
Aqui temos desde os temas universais, com forte presença dos elementos da natureza, ao humano e ao mundano. O sotaque e as letras trazem-nos uma verdade, uma realidade, que não conhecemos, apenas intuímos e respeitamos de imediato.
É um disco acústico, conduzido pela omnipresente viola da terra, mas também com um violino precioso, baixo, percussão e clarinete. Romeu tem raízes na tradição etnográfica de São Miguel, e este disco soa, mais do que a uma reinterpretação, como se estivéssemos a ouvir canções de sempre do arquipélago, cuja origem se perdeu no tempo (algumas são isso mesmo).
Todos os temas são interessantes e cativantes, com as suas histórias simples, bonitas e por vezes com ecos de tragédia, mas não podemos deixar de destacar a extraordinária “Jacinta“, canção de engate deliciosa e viciante que serviu de single, ainda em 2024.
Romê das Fürnas é um dos discos mais únicos de 2025 no panorama musical português.