Dez cantautoras na voz de uma só. Rita está de volta e traz uma paleta multicolor de temas: esperanças, corpo, prazer, angústias, ironias, assédio e violência machista.
Depois do Porto, Lisboa. Depois de casa cheia, lotação esgotada. Depois dos estrondosos aplausos, ovações de pé. Fala, o novo disco em que Rita Redshoes troca o hábito de assinar as próprias músicas pelas canções de dez portuguesas, acumula reações de carinho e afetividade.
O feminino é plural, diverso, multifacetado, não se limita a uma voz, galga barreiras e condicionalismos. Da esperança às críticas ao assédio e à violência machista, da afirmação da igualdade a diferentes angústias do dia a dia: tudo isto e muito mais está no sétimo trabalho de originais de Rita.
Sim, há pontos de contacto com 2012 e com aquele espectáculo a que chamou “The Other Women – O mundo nas canções d’Elas”, no qual interpretava Joni Mitchell, Nina Simone, Dolly Parton, Nico, Joan Jett, Amélia Muge, PJ Harvey, Loretta Lynn, Lhasa de Sela, Patti Smith ou Sheryl Crow.
Com apoio de um coro que traz cinco vozes femininas, duas masculinas e que intervirá em palco outras cinco vezes, a noite inicia-se no medley de “Mamãe Coragem”, de Gal Costa, seguindo-se logo a mais marcante canção do álbum: “Fala Bem”, d’A Garota Não, um alerta para que os pais promovam a educação da intimidade junto de raparigas e rapazes por igual. No palco, um dos músicos é precisamente Sérgio Miendes, guitarrista do projeto de Cátia Mazari Oliveira; na plateia está ainda João Mota, outro elemento da banda.
A artista, que tocará vários instrumentos (piano, percussões, guitarra eléctrica e acústica), deixa as primeiras palavras a um público onde sobressaem os maiores de 40, agradece e pede palmas para as mulheres que desbravaram caminho a permitir-lhe fazer o seu e o de tantas outras. Regressa à música com “Não diz tudo o que eu sou”, que tem letra de Ana Cláudia, musicada por Margarida Campelo. Identifica na assistência a autora de “Serviços Mínimos”, Francisca Cortesão/Minta, fala na filha de oito anos, pequeno furacão lá por casa, e canta o tema.
“Beginning Song” representa um primeiro regresso ao passado, neste caso a 2008, antes de “Não é Normal” – escrita por Cláudia Pascoal e da qual ressalva a frase “existir com ódio de quem vive não é normal” – e de “Choose Love”, trocando a guitarra pelas teclas. “Trança” é a proposta de Márcia, também ela na plateia, a anteceder duas incursões acústicas: “Dream on girl”, seu primeiro single em 2007, e “Vou começar pelo fim”, de Amélia Muge, ironia em ritmo de carrossel de feira. Pelo meio, para fintar emoções, segundo confessa, apresenta Miendes (guitarra elétrica, guitalele, voz e baixo), Bernardo Pereira (baixo, teclados, percussão, glockenspiel e voz) e Miguel Moreira (bateria, percussão, piano, samples e voz).
O público vai aplaudindo de modo entusiástico e reagindo à comunicação com a artista. Que, entretanto, conta a história de como Emmy Curl lhe enviou uma canção da mãe, Marília Miranda Lopes, intitulada “Desejo-te sorte”, uma lição sobre deixar ir alguém mesmo quando não se quer, e passo imediato na atuação. “A mesma solidão”, de Joana Espadinha, outra das cantautoras presentes, traz histórias de quem, vivendo com companhia na mesma casa, o faz como se estivesse só. “Homem”, resultado do génio de Caetano Veloso, é bem eloquente: “Não tenho inveja da maternidade/nem da lactação/Não tenho inveja da adiposidade/nem da menstruação/Só tenho inveja da longevidade/e dos orgasmos múltiplos.”
Um último regresso ao passado traz “Captain of my soul”, para o qual desafia e obtém o público a marcar compasso com palmas, e “Mulher”.
Para o encore ficam temas mais intimistas: “Colo”, de Mafalda Veiga, e “Sei”, de Ana Bacalhau, cujas presenças na plateia são também assinaladas. A noite termina com o regresso a “Fala Bem” e aquele ritmo de marcha que nos remete para “Grândola, Vila Morena”.
Fotografias de Eddie Jones








