THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE. é o segundo disco de RAYE, cantora britânica que domina a linguagem do jazz, da pop e do teatro musical como poucas, mas que parece perdida com o medo de ofender qualquer um deles. Este disco está repleto de excelentes ideias que pecam aqui e ali e o impedem de se tornar excepcional.
“I Will Overcome.” é uma canção que poderia figurar em qualquer espectáculo da Broadway que será um grande sucesso durante duas ou três temporadas e que depois cairá no esquecimento profundo – excepto no dos aficionados. Tem uma excelente cadência, um bom coro e uma boa orquestração, mas não tem rasgo e tem um grande problema de exagerar na sua estadia. Metade das canções beneficiariam de alguém que fosse lá limar uns segundos (ou até minutos).
Em “Winter Woman.” a artista assegura que “vai estar triste e bonita” ao mesmo tempo. E ainda bem para ela. Mas se queremos esta roupagem pop quase-risqué, há muito melhor feito no passado e até este ano. “I Hate the Way I Look Today.” é uma versão gourmet de Meghan Trainor e “Goodbye Henry.” parece uma canção rejeitada por todos os grandes nomes da Motown mas que RAYE pegou para poder dizer que tem uma canção com o Motown-sound (nem Al Green safa a canção).
Mas a verdade é que há coisas boas (até muito boas) neste disco. Juramos! “Click Clack Symphony.”, com o aborrecidíssimo Hanz Zimmer, tem uma excelente interpretação vocal e uma dinâmica muito engraçada entre o swing, a pop e a spoken word. “Skin & Bones.” tem pop à Mark Ronson com muita lábia e atitude à mistura. “Nightingale Lane.” é uma montra óptima para RAYE dar asas à sua sensibilidade soul grandiosa, no jeito de Etta James ou Adele. E “Lifeboat.” é uma festa numa discoteca onde RAYE parece dançar sozinha, mas enchendo a pista. O problema não são a meia-dúzia de canções boas. São as tantas outras que tornam este projecto pesado.
Se queremos grandes cantoras, há outras miúdas com vozes capazes e com menos medo de cantar ali na falha. Se queremos instrumentação arrojada, não é preciso ir procurar muito fora da pop para a encontrar. Por vezes RAYE incorpora a versão feminina e mais suportável desse grande chato de seu nome Jacob Collier: mas esse tem o dom de fazer tudo bem e nada (mas é que rigorosamente nada!) ser interessante. [Enquanto escrevíamos este parágrafo fomos procurar se havia alguma relação entre ambos e são os dois amigos. É preciso pontaria.] RAYE acerta várias vezes. Só tem de aprender a descartar o que não é assim tão bom.
THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE. poderá ganhar todos os prémios (esperemos que ganhe, porque ao contrário de muito do que se faz hoje, é arrojado e desafiante), mas daqui a cinco anos será o disco que nos lembramos que existiu, não aquele que nunca nos abandonou. Mas se tivermos sorte, é um degrau para RAYE se tornar uma das grandes artistas da sua geração. Alguém que lhe arranje um dealer manhoso ou lhe parta o coração a valer. É preciso que ela se sacrifique pela arte!