Um disco de tom negro mas carregado de humor, com a marca indelével do seu autor.
PZ é Paulo Zé Pimenta que, desde o Porto, há alguns anos nos presenteia com a sua fórmula sui generis: instrumentais de base electrónica servidos por letras carregadas de humor, entregues naquele sotaque nortenho que tudo sublinha.
Chegados aqui, ao sétimo disco de originais, nada de fundamental muda. Neste O fim do mundo em cuecas há talvez um aprofundamento do trabalho. É um álbum longo, mais longo que o habitual, e sente-se um tom negro que perpassa a maioria dos temas, nos beats e na excelente base instrumental. Este é um ponto importante: PZ é um dos mais talentosos artífices de beats nacionais, misturando eficácia rítmica e melódica com soluções originais, que vai inventando e buscando entre as suas máquinas.
O mesmo se passa aqui, talvez de forma ainda mais evidente. Mas esse é apenas um dos lados do Fim do mundo em cuecas e da própria obra de PZ. O outro são as suas letras e a sua postura, que não podem ser separadas. Aquele lado blasé, meio aparvalhado e nonsense, é uma das suas forças, embora possa impedir que o levem a sério enquanto músico (e na verdade não sabemos se é isso que ele deseja). Basta dizer que a “edição física” do disco são umas cuecas com um QR code para fazer o download do álbum, e que o single “Pu” foi promovido com um leilão de traques de famosos, em frascos, com a receita a reverter para a União Audiovisual.
Vendido como uma crónica dos tempos distópicos que vivemos, O fim do mundo em cuecas não é exactamente um disco conceptual. Há por aqui de tudo um pouco, um cheirinho de várias coisas que PZ foi fazendo ao longo dos anos. Serve não tanto como uma narrativa direitinha e mais com um showcase de tudo o que o músico sabe e pode fazer.
Em termos sonoros, temos desde atmosferas meio horrocore em “Isso é que era bom” ao electro esquizóide de “Estrada de lágrimas”, passando pelo ska partido de “Viela”, o pós-punk de “Pu” ou o funk electrónico de “Dentro de momentos”.
Ao longo de 20 músicas e mais de uma hora, há muito por onde descobrir nesta verdadeira toca do coelho. O que dizer do tom negro de “Indo eu”, com guitarra portuguesa, ou do pastiche latinado de “Montadito de mierda?”. O disco vai perdendo alguma força na segunda metade, mas nunca deixa de ter motivos de interesse.
A celebração final dá-se no último tema, “Fim”, com o pai (ou a mãe) de todos os featuring: 20 artistas portugueses participam… dizendo o seu próprio nome, desde Benjamin a Capicua, incluindo David Bruno ou JP Simões.
PZ continua a ser um dos autores mais idiossincráticos da música portuguesa contemporânea, e vai-se divertindo com isso. E nós a achar isso muito bem.