Mais de 20 anos depois do lançamento, é Stories From The City, Stories From The Sea um dos melhores trabalhos de PJ Harvey? Sim.
Stories From The City, Stories From The Sea não tinha uma tarefa fácil pela frente. Era o quinto disco de PJ Harvey e sucedia diretamente ao incrível Is This Desire?, um álbum escuro e contemplativo. Sim, o disco até ganhou um Mercury Prize mas ganhar prémios nem sempre é indicativo de que seja um grande trabalho, apenas que o trabalho anterior chamou a atenção às pessoas corretas.
E o problema deste álbum é mesmo ter a comparação anterior. Por toda a sua carreira, PJ Harvey lá nos foi acostumando a umas grandes reviengas (para utilizar uma metáfora futebolística mais engraçada do que apenas dizer que vai inovando nas suas canções). É também o disco mais acessível de Harvey, e por isso odiado pelos fãs mais puristas, mas eles que se danem. E já explico porquê.
Em Stories From The City, Stories From The Sea encontramos Nova Iorque pela noite, guitarras a lembrar trabalhos anteriores como em “Kamikaze”, “Big Exit” e “This Is Love”, as atmosferas mais escuras em “One Line” e “Horses In My Dreams” mas também canções mais soalheiras e polidas como “We Float” (com um bonito som de eBow em toda a canção), “Good Fortune” ou “You Said Something”.
É um álbum que consegue combinar várias emoções, é mais melódico e menos cru, e conseguiu algo que beneficiou muito a carreira de Polly Jean Harvey, ao ter canções boas para passar na rádio, o que fez com que atingisse novos públicos. Se não fosse este trabalho, o estatuto alternativo indie de PJ não tinha evoluído, pelo menos não nessa altura, ao virar do século.
E sim, temos as comparações. À escrita de Tom Waits, ao estilo de uma Siouxie Sioux ou Chrissie Hynde em algumas vozes, até aos próprios Radiohead nos ambientes onde entra a voz de Thom Yorke. Mas nada disso desvirtua a força deste disco. Antes pelo contrário. Harvey aparece segura de si mesma, sem medo de mostrar algumas influências, sabendo que cria uma coisa singular com as suas composições.
Várias canções deste disco merecem estar num best of, como “Big Exit”, “This Is Love”, ou “This Mess We’re In“, um dos dois duetos com Thom Yorke, para mim o melhor, pela letra e a atmosfera de desejo/saudade, um tema que não é aliás único a esta canção. Numa perspetiva mais animada emocionalmente encontramos “A Place Called Home”, outra das que merece constat entre as melhores feitas pela cantautora.
Então porque é que na altura, a Pitchfork deu um 5.5 em 10 e escreveu que só tinha três canções boas, quando objetivamente, vinte anos depois, é um dos melhores discos de PJ Harvey? Primeiro porque são parvos, algo que sempre defendi e quis escrever. Depois porque esperavam outro álbum escuro e menos radio-friendly, igualmente cru e não polido como é Stories From The City, Stories From The Sea. Se têm dúvidas metam este disco a tocar. Se não se tornar um dos vossos preferidos de PJ Harvey, lamento dizer que têm um problema.