De Nala Sinephro a Kamasi Washington, Shabaka, Ezra Collective e Rafael Toral, foram muitos os que este ano nos fizeram apaixonar pelo jazz. A redação Altamont juntou-se e selecionou 20 álbuns que nos ficaram na memória.
Era uma ideia há muito discutida e debatida na redação do Altamont, finalmente materializada este ano. Porque sabemos que temos, entre os vários elementos que contribuem para o nosso site, vários aficionados do jazz, e porque este é um género de música que tende a escapar às eleições gerais de melhores discos do ano – como as que fizemos para álbuns nacionais e internacionais -, juntamo-nos para fazer um best-of de discos jazzísticos de 2024. Estas foram as nossas escolhas.
Nala Sinephro – Endlessness (Carlos Lopes)
Endlessness é um álbum que corre em contramão. Ele caminha no sentido contrário da direção desgovernada do mundo. Não alinha em urgências. É dado a vagares e a demoras. Assim sendo, é (ou pode até ser) um disco-manifesto, à maneira dos ensinamento de Milan Kundera, na obra A Lentidão (Edições Asa, outubro de 1995). Nesse texto, há uma passagem que diz o seguinte: “Na matemática existencial, esta experiência assume a forma de duas equações elementares: o grau da lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau da velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento”, o que diz muito sobre a génese deste disco.
Kamasi Washington – Fearless Movement (Mak)
Fearless Movement é como o nome indica. Da capa – onde temos o exemplo mais puro de um movimento sem medo, a corrida de uma criança em êxtase – até ao ritmo, quase sem paragens, com ímpeto, intencional e marcado por todos os instrumentos. Depois da sua estreia transcendental em The Epic (2015) e do seu segundo álbum “Heaven and Earth”(2018), Kamasi Washington traz-nos um novo som, uma nova forma da sua identidade, onde há diversão e brincadeiras além da mais pesada viagem emocional a que nos acostumou. Apesar de ser um disco cheio de convidados com excelentes performances, não podemos deixar de salientar a presença de André 3000 com a sua flauta em “Dream State” e de Thundercat em “Asha The First”, onde temos o groove mais funky do disco. “Prologue” fecha a viagem como um apanhado de tudo o que foi dito. Sempre a rasgar, são 8m19s de música em que ouvimos Kamasi no seu melhor, com as suas duas baterias em uníssono, que nos faz sentir Fearless. Apesar de uma recepção conturbada pela crítica, é sempre de louvar e encorajar cada vez que um artista explora novos caminhos. A arte é um rio, não um lago. Esperamos ansiosamente que os próximos trabalhos deste peso pesado do jazz sejam tão destemidos quanto este.
Shabaka – Perceive its Beauty, Acknowledge its Grace (Tiago Freire)
O fundador de duas das mais importantes instituições do jazz britânico contemporâneo – The Comet is Coming e Sons of Kemet – lançou o seu primeiro disco a solo na sequência do fim dessas bandas. Largou o saxofone e apostou nas flautas e no clarinete, e o resultado é um disco mais ambiental, sereno e muito bonito, com toques de New Age. Conta com convidados como Floating Points, Laraaji e Lianne La Havas.
Ezra Collective – Dance, No One’s Watching (Gonçalo Correia)
As águas do Reino Unido são nitidamente férteis para o florescimento de novos projetos de jazz – só nos últimos anos, desaguaram já Nubya Garcia (também com disco este ano), Moses Boyd, Sons of Kemet, The Comet Is Coming, Alfa Mist, Yazmin Lacey… – mas talvez os Ezra Collective sejam o maior e mais importante de todos eles. O quinteto liderado pelo baterista Femi Koleoso, que inclui um baixista, um teclista, um trompetista e um saxofonista, parte do jazz para um caldeirão que mistura funk, calypso, reggae e hip-hop. Por palavras mais simples, fazem do jazz uma festa dançante, enérgica e suada. Para o primeiro disco, You Can’t Steal My Joy (2019), convidaram gente como Jorja Smith e Loyle Carner. Com o segundo, Where I’m Meant to Be (2022), ganharam um Mercury Prize, reputada distinção de Álbum do Ano da indústria britânica (os English Teacher, superando Charli XCX, Beth Gibbons e The Last Dinner Party, foram os mais recentes vencedores; Little Simz e Arlo Parks outros premiados recentes). Este é o terceiro álbum, editado este ano, com um extraordinário single de apresentação (God Gave Me Feet For Dancing, com Yasmin Lacey). Não é menos do que um dos grandes discos, de jazz ou não, de 2024 – e confirma os Ezra Collective como uma banda maior desta época.
Rafael Toral – Spectral Evolution (Miguel Moura)
Spectral Evolution é o culminar da carreira de Toral, um disco que resultou de mais de trinta anos de pesquisa incansável e que encerra em si quase todos os caminhos que o músico percorreu até agora. Se isto é a semente que originará a fase seguinte da sua carreira, não sabemos ainda. De qualquer modo, os nossos ouvidos estão colados ao espaço, ao céu e à terra.
Brad Mehldau, Mark Turner e Peter Bernstein – Solid Jackson (Filipe Garcia)
Arrisco que não haverá quem tenha começado a ouvir Jazz nos anos 90 que não sorria ao ouvir o nome de Brad Mehldau, o primeiro contemporâneo que muitos de nós descobrimos, a primeira estrela que vimos crescer, o nome de jazz à prova de bala que passámos a poder usar em discussões, mais ou menos aguerridas. O Jazz estava morto? Ou então, tínhamos o norte-americano para nos ajudar na luta, na defesa de uma geração que enfrentava o peso de ter crescido, literalmente, aos ombros de gigantes. Mehldau ajudou, muito. Editado há poucas semanas, “Solid Jackson” resulta da segunda reunião de Mehldau com Mark Turner e Peter Bernstein, a equipa reduzida de uma ‘festa’ gravada em 1994 e apenas editada em 2000 – Consenting Adults – de que os mais atentos terão guardado memória. Um disco a não perder e, ainda assim, apenas mais um disco de Mehldau em grande companhia. Apenas?
Yakuza – 2 (Carlos Lopes)
2 é um ótimo disco de jazz urbano, parecendo próximo dos sons do nu jazz londrino dos anos 90, embora aqui se apresente mais viajante, ainda mais capaz de construir imagens por onde a música os vai levando, pequenos instantes fotográficos (mas em movimento), instantes de inegável beleza artística.
Don Glori – Don’t Forget To Have Fun (Mak)
Don Glori continua espiritual, funky, groovy e, acima de tudo, divertido. Glori, que já nos tinha mostrado em “Welcome”(2022) a sua versatilidade musical entre viajante psicadélico e bailarino de samba, volta com um disco mais calmo, mais complexo, em que refina a intenção do seu primeiro trabalho. Sempre nos downbeats, Glori oscila entre grooves de fazer mexer o avô com artrose e momentos calmos com coros e sopros que são um e um só, que despertam a alma e nos fazem subir as escadas para um sótão envidraçado e luzidio onde transcendemos. Subimos essas escadas com frases que são como mantras, repetidas vezes e vezes e vezes sem conta até existirem dentro de nós. Glori assume várias vidas, traduzindo exemplarmente a sua identidade por todas elas.
Adrian Younge – Adrian Younge Presents Linear Labs: São Paulo (Tiago Freire)
O norte-americano Younge veio do hip-hop e foi-se aproximando tanto do jazz como de todas as formas de música negra americana, desde os sons da Blaxplotation ao rock progressivo. O fundador da editora Jazz is Dead, aqui, imagina São Paulo como o centro de um caldeirão musical, onde cabem o jazz, o funk, o samba, o hip-hop e muita coisa mais, tendo como resultado um disco dançante e viciante.
Joel Ross – Nublues (Gonçalo Correia)
É curioso como no jazz americano a ideia de blues enquanto energia, espírito e expressão de vida afro-americana – mais do que como mero estilo de música – tem vindo a marcar a produção contemporânea. Há uns anos, era Ambrose Akinmusire quem se debatia com o que a energia do blues significa, o que representa hoje e até onde pode ser expandida. Agora, é o vibrafonista Joel Ross que o faz, num álbum também de “baladas” (oiça-se a doce e bonita “mellowdee”) em que tocam músicos como o baterista Jeremy Dutton, o pianista Jeremy Corren, a contrabaixista Kanoa Mendenhall e o muito talentoso saxofonista Immanuel Wilkins. Entre composições originais e standards de Coltrane (Equinox e Central Park West) e Thelonious Monk (Evidence), contém jazz do melhor que há, elegante e extraordinariamente bem tocado. À beira dos 30 anos (nasceu em 1995), Joel Ross já tem quatro discos editados pela Blue Note e já tocou com Peter Evans, Brandee Younger, Marquis Hill, James Francies e Makaya McCraven (é, aliás, recorrentemente chamado por McCraven para os seus discos). Por outras palavras, um talento geracional.
Roy Hargrove – Grande-Terre (Filipe Garcia)
Em 2018, com apenas 49 anos, Roy Hargrove despediu-se, deixando para trás uma discografia onde se ouve o clássico Jazz, os mais variados Bops, Hip Hop, Soul e até umas voltinhas próximas do rock. Hargrove, descoberta atribuída a Wyton Marsalis, deixou um pouco de tudo, até “Habana”, disco de sonoridade apresentada em título, merecedor de Grammy para o melhor Jazz Latino do ano (1998) e lugar de destaque nas discotecas caseiras de todos os que sejam fãs da mais animadas das fusões a que os homens do jazz mais frequentemente se dedicam. E o que não sabíamos? Não sabíamos que entre as gravações que deixou por editar, Hargrove deixara “Grande-terre”, disco pensado e tocado como sucessor para “Habana”, gravado em Guadalupe, no ano da edição de “Habana” e com a mesma mestria. Um disco imperdível.
Von Spar, Eiko Ishibashi, Joe Taria & Tatsuhisa Yamamoto – Album I (Carlos Lopes)
Aqui, neste local onde o som tem sempre destaque, gostamos de jazz, pois então. Do mais clássico, se assim acharmos por bem dizer, ao mais erudito, passando pelo free, por exemplo, ou por qualquer outra paragem mais exótica, mais chill, mais tudo. Jazz é liberdade, e o uso desse espaço sem barreiras vai garantindo, ano após ano, que nos acostumemos a olhar para esse género musical como algo muito apetecido. Este texto é, necessariamente, um lugar onde encontramos o que acabámos de referir. E agora, neste breve arrazoado de palavras, cabe a vez a Album I, de Von Spar, Eiko Ishibashi, Joe Taria & Tatsuhisa Yamamoto. A razão da preferência prende-se, sobretudo, pela sua aproximação ao krautrock, outro género que por aqui também vai tendo alguns fanáticos e outros a meio caminho desse estado de alma. Jazz, kraut, free e alguma maravilhosa improvisação fazem deste disco uma pérola bem preciosa, que se ouve sem que o tempo pareça passar, embora passemos com ele. Por vezes, alguma neblina, alguma aragem interior que mal se sente. Outras tantas, um sol que se insinua sem avisar, vindo dos vastos lençóis de som que se agitam em permanência durante as sete faixas presentes. Foi a icónica Bureau B (pois claro) quem o colocou nas nossas mãos e ouvidos. Não há fillers em Album I, acreditem, mas há faixas que se tornam mais próximas de nós do que outras. Mais atrevidas, portanto, por contraste com as mais tímidas. Ouçam, por exemplo, “II” e “V” e vejam lá se não vislumbram alguma coisa de CAN por ali. No entanto, e melhor do que continuar este parágrafo, o melhor mesmo é ouvir Album I e morrer de amores por ele.
Daniel Bernardes – City of Glass (Tiago Freire)
O compositor e pianista de Alcobaça parte do primeiro tomo de “A Trilogia de Nova Iorque”, de Paul Auster, como inspiração para um trabalho extremamente rico e detalhado. Aprofunda aqui a relação entre o jazz e um grupo coral, o Coro Ricercare, resultando num disco negro, nocturno e sempre elegante. Necessariamente um dos destaques nacionais do jazz em 2024.
Bremer/McCoy – Kosmos (Gonçalo Correia)
Um comprimido de serenidade em forma de disco. Não queremos, claro, menorizar o que a ansiedade e o stress podem provocar – esgotamentos, ataques de pânico, situações clínicas que exigem respostas profissionais, e não sónicas -, mas Kosmos é tão eficaz como terapia de relaxamento quanto um medicamento artístico natural o pode ser. O sexto álbum do duo composto pelos dinamarqueses Jonathan Bremer (contrabaixo) e Morten McCoy (piano) é um disco que, durante 35 minutos, é capaz de suspender o tempo, desacelerar o mundo e mergulhar o ouvinte num universo sonhador. Nas palavras dos próprios, é um disco arejado, etéreo e leve, nascido da sensação de “existir, transcendendo espaço e tempo”: “Apesar de ser música calma, é música que podes sonhar”. Não diríamos melhor.
Oz Noy – Fun One (Filipe Garcia)
Israelita, desde 1996 residente em Nova Iorque e, diz a biografia oficial, aos 24 anos já se tornara num requisitado guitarrista de estúdio. E em “Fun One” ouvimos bem porquê. Não são as composições mais complexas, não se identificam malabarismos demoníacos na guitarra, antes somos agarrados por um groove, do melhor jazz contemporâneo, contagiante, que nos obrigada a balançar o pé, a cabeça e, inevitavelmente procurar um dos dez discos anteriores. Ficam mais duas sugestões: os dois volumes de “Twisted Blues” e “Get the Funk Out”.
Colinas, Lázaro, João Vairinhos – Colinas (Tiago Freire)
Talvez seja forçado colocar este disco e este novo projecto, que junta o baterista João Vairinhos com Pedro Geraldes (aqui como Lázaro), na categoria do jazz. Soa-nos a isso mas também é noise, também é ambient, é muita coisa junta, toda ela boa. Uma homenagem negra e enleante à cidade de Lisboa, dos ecos do seu passado à sua permanente transformação.
Charles Lloyd – The Sky Will Be There Tomorrow (Gonçalo Correia)
A cada disco novo que lhe ouvimos pensamos (tememos): é desta que Charles Lloyd vai começar a evidenciar a fragilidade da idade? E ainda: em quantos mais discos o poderemos ouvir? Atualmente com 86 anos, o saxofonista nascido em Memphis, no Tennessee, continua a produzir e, talvez mais surpreendentemente, não cessa de acertar. Ouvimos-lhe, nos últimos anos, discos como “Passin’ Thru” (2016), “8: Kindred Spirits (Live From the Lobero)” (2020) e “Tone Poem” (2021). Ouvimo-lo, este ano, neste “The Sky Will Be There Tomorrow”, gravado com os maravilhosos Brian Blade na bateria e Jason Moran no piano. Toda esta “formação all-star”, como lhe chamava o The Guardian, dialoga com engenho e química, mas no piano de Moran e no sopro absolutamente característico, facilmente reconhecível, de Lloyd estão dois trunfos insuperáveis. A classe é realmente eterna.
Greg Foat – The Glass Frog (Tiago Freire)
O multifacetado pianista e compositor inglês Greg Foat tem discretamente feito um enorme caminho de afirmação na cena jazz britânica. O seu jazz é de outro tempo, melódico, tanto gélido como funky, sempre em ligação com o lado ambiental, com teclados subtis e sintetizadores tecendo a cama para os instrumentos de sopro. “The Glass Frog” é um deleite musical, que nos leva numa viagem quase espiritual.
Vijay Iyer, Linda May Han Oh, Tyshawn Sorey – Compassion (Gonçalo Correia)
Um álbum como “Uneasy” (2021), o primeiro do trio formado pelo pianista Vijay Iyer, a baixista e contrabaixista Linda May Han Oh e o baterista Tyshawn Sorey, exigia sequência. O cinquentão novaiorquino Iyer, um dos mais importantes instrumentistas e compositores do jazz contemporâneo, tê-lo-á percebido e, depois de um extraordinário disco que editou no ano passado com outro trio (Arooj Aftab na voz e o multi-instrumentista Shahzad Ismaily entre baixo elétrico e sintetizador modular), voltou às edições com Han Oh e Sorey. Menos impressionante do que o antecessor, talvez pelo efeito novidade dissipado, não deixa de ser um disco com rasgo, “acelerado”, nervoso até em alguns momentos, sempre bom.
Old Mountain – Another State of Rhythm (Tiago Freire)
Este é já o terceiro disco de Old Mountain, o nome que agrupa as aventuras de Pedro Branco e João Sousa, que vão coleccionando amigos e colaboradores pelo caminho. Esta edição da sempre certeira Clean Feed consegue uma proeza que não é acessível a todos: tem o equilíbrio certo entre o improviso e a exploração e o sentido melódico que vai prendendo o ouvinte. É quase um compêndio das várias linguagens do jazz, servido por músicos de excelência e com uma elegância que marca do princípio ao fim.