Old Jerusalem é sempre um valor seguro. Twice The Humbling Sun é um manto protetor e outonal, ideal para esta estação do ano, ou para outra idêntica que viva no mais íntimo de nós.
O álbum Twice The Humbling Sun, de Old Jerusalem, antigo projeto de Francisco Silva, é um disco contido, que não se espreguiça para fora de pé, em que os detalhes obrigam a uma escuta tão atenta, quanto prazerosa. É a folk anglo-americana feita por um português de sensibilidade muito própria, que se vai impondo (como quando um gato manso e bom se enrosca por entre as pernas de quem quer tornar-se amigo) pela beleza das melodias, o aprumo das composições e o apuro da voz, de timbre muito próprio.
Assim que o colocamos a rodar, sabemos ao que vamos. Nada aqui é demasiadamente complexo, tudo vai sendo construído aos poucos (in our face) com progressões belas e subtis, que conferem profundidade emocional e lírica de forma a não nos deixar indiferentes. Aqui, nada encandeia, antes pelo contrário. A intensidade torna-se próxima e há brilhos rasos que cintilam, piscando-nos os olhos. Tudo parece um frágil e tímido novelo, enrolado para dentro, da mais singela e pura lã melódica possível. E assim, é inevitável o recolhimento, a contemplação, baixar os braços em sinal de rendição. Afinal, pode ser bom sermos vencidos.
Nota-se, ainda e sempre que voltamos a ele, o cuidado com os arranjos, dominados por guitarras acústicas e pequenos toques de outros instrumentos, sempre em camadas leves e passageiras Como uma brisa ao final da tarde, quando o sol se põe em nós. A produção é limpa, transparente, permitindo que cada elemento tenha espaço para respirar.
Entre os temas mais marcantes, “Earlier The Lake Today” destaca-se pela sua cadência contemplativa, quase hipnótica. A canção parece falar do tempo e da memória com uma delicadeza cinematográfica. Os melhores cineastas franceses passam por aqui, se a nossa imaginação permitir. Já “Seasons” evoca os ciclos da vida e do sentimento com grande simplicidade, mas com uma profundidade poética assinalável. Há aqui uma relação clara entre natureza e estados de alma (a poesia sempre funcionou dessa forma, não é verdade?), um eco clássico entre a contemporaneidade dos dias e os sentimentos que ele próprios suscitam, filtrados por coisas imponderáveis como suspiros, desejos e outras emoções avulsas.
Outro momento alto é “A Feast of Our Communion”, onde se sente uma espiritualidade subtil, nada religiosa, antes presa ao ímpeto da comunhão entre pessoas, lugares, momentos e vontades prementes. A canção constrói-se como um pequeno ritual, por via de arranjos quase mínimos, deixando que o silêncio também atue, ganhando voz e espaço. O disco despede-se com “Finally For Me”, uma espécie de epílogo calmo, que sugere aceitação e descanso. É uma despedida sem estrondo, mas com serenidade. Estamos, ficamos e permaneceremos em paz, enquanto a vida lá fora não voltar a agitar-nos.
O título do álbum, Twice The Humbling Sun, parece resumir o espírito das canções: a ideia de um sol baixo que nos ilumina e nos recorda que somos pequenos e frágeis. Que estamos sempre em desvantagem ante a natureza, o tempo, a vida. As canções habitam esse espaço de humildade e somos levados a entrar por aí… Nada há a recear. Tudo é fingimento, tudo é representação. E quanto mais poético, mais real.
Não se trata de um disco para audições distraídas. Requer tempo, atenção e uma certa predisposição para a escuta sensível. Mas, para quem aceita esse convite, Twice The Humbling Sun oferece uma experiência rica e duradoura, que ressoa para além do momento em que a música termina. Até porque, a bem da verdade e num certo e particular sentido sentido, ela não termina porque se prolonga em nós.