Wild God é um disco de esperança. Pode até não se notar muito, mas ela está lá, renovada pelas lutas constantes entre Cave e os seus velhos demónios, que vão estando sempre à espreita.
O caminho é longo e faz-se caminhando. A cada passo, as mesmas areias movediças que dificultam o caminho, que enterram um pé e fazem emergir o outro. Os desertos da alma custam a percorrer, bem o sabemos. No entanto, a cabeça permaneceu sempre erguida, sabendo-se lá a que custo. Foram anos de precipício e queda, vividos como se fosse possível mitigar a proximidade vertiginosa do fundo do poço com as elegâncias sofridas da arte. Talvez só a arte seja, de facto, capaz de nos salvar. E se assim é para todos, para Nick Cave é seguro que tem sido durante os anos mais recentes da sua existência. E se antes era essa mesma arte que o afundava em terríveis vícios e paranóias, agora salvou-o da mais medonha das mutilações que um pai pode ter. É assim, a vida. Ou de outra forma qualquer. O que tiver de ser.
Nick Cave está de regresso e vem, mais uma vez, com as suas particulares escrituras sagradas a tiracolo. É claramente um dos regressos mais esperados do ano!
“Song Of The Lake” é a faixa que inicia o disco. Narrativa, como tantas são no catálogo de Nick Cave, o que mais impressiona aqui é uma espécie de coro constante que acompanha a voz poderosa que tão bem conhecemos. Bela abertura, sem dúvida. Não sendo nossa pretensão detalhar cada canção de Wild God, registemos aquelas (e são algumas) que mais impressionam quem as ouve. “Wild God”, a canção-título do álbum, tem de ser mencionada, não apenas por ser bela, mas por criar um link com “Jubilee Street”, tema cimeiro de Push The Sky Away (2013), ao evocar, na canção recente, um deus selvagem (“a man of great virtue and courage”, ou assim ele se imaginava) que procurou uma rapariga em Jubilee Street, que no tema de 2013 sabemos ter-se chamado Bee, uma jovem com uma história, mas sem passado. Em “Joy”, é o piano que comanda, de início. Nick Cave vai dedilhando uma melodia que é tudo menos o que o título indica. A letra é das mais poderosas de todo o álbum, evocando uma vez mais (mas já de outra forma, que de tão intensa parece ser mais imaginada do que real) a misericórdia da alegria possível (“Have mercy on me please / For joy for joy for joy”). “Final Rescue Attempt” é a perfeita sequência para “Joy”, até nas notas do piano, que volta a marcar o tema sombrio e denso. Há muita neblina nos ambientes de várias canções, nas histórias narradas, nas preces que se vão fazendo. A elegância de tudo isto, de todas estes momentos feitos canções, é deslumbrante. Mantos de amor sofrido que acenam e nos fazem bem ouvir. “Conversion” vale sobretudo pelo seu épico final poderosíssimo. “Long Dark Night” enfeitiça-nos com aquele piano que parece em loop constante, tornando-se dos melhores (leia-se mais bonitos) temas de Wild God. E vamos caminhando para o final, quando surge “O Wow O Wow O Wow (How Wonderful She Is)”, que para além de muito bela, traz consigo uma riqueza maior que se condensa numa linha de texto que é de uma melancolia desarmante. Diz assim, recordando Anita Lane, falecida em 2021, pela sua própria voz, esse antigo amor e parceira de Nick Cave, num já distante passado: “Do you remember we used to really, really have fun?”. Pois é essa mesma graça entretanto perdida, que agora é forçoso recuperar, parece-nos. Evocar os alegres momentos vividos com quem já não está vivo (Anita, os filhos que Nick Cave perdeu) terão de ser o caminho próximo, aquele que Wild God parece começar a trilhar. Wild God é, estamos em crer, o melhor álbum de Nick Cave desde No More Shall We Part (2001).
E assim temos mais um muito sério (diríamos mesmo obrigatório) candidato a disco do ano. Wild God é um trabalho que enceta um novo caminho na obra de Nick Cave, como já fomos referindo. Mesmo que passe a dor, nunca passará o ter doído, como (mais ou menos assim) dizia o extraordinário poeta brasileiro. Teremos de seguir em frente. Por nós, mas talvez sobretudo por quem ficou para trás, mas que trazemos sempre connosco na alegria possível dos instantes.