Um disco que pinta África com as cores do Brasil e um toque de Lisboa, com um resultado enternecedor e muito bonito.
Num momento em que cada vez mais se ouve (e se faz) música africana em Portugal, Nancy Vieira é uma das figuras cimeiras dessa feliz contaminação. Nascida na Guiné Bissau, a cabo-verdiana vive há muito em Portugal, mas a sua vida tem três polos: Cabo Verde, sempre e naturalmente; Lisboa, a sua casa; e o mundo, para onde leva sempre que pode as suas doces sonoridades.
Este disco, Gente, é um encontro de tudo isto. E é também um encontro de muita “gente”, um trabalho colectivo no qual sentimos, sem ponta de dúvida, o grande prazer que foi certamente a invenção e a gravação deste trabalho.
Há a sempre presente morna, claro, que nos conduz e balança suavemente, fazendo com que nós, sem nos darmos conta, comecemos a esboçar um sorriso feliz e tranquilo, e a mexer o corpo, suavemente. Temos também a Lisboa de “Fado Crioulo”, o único tema cantado em português e em dueto com António Zambujo, sendo o restante em crioulo, a língua da terra, a língua do povo, ainda que o português seja a língua “oficial” de Cabo Verde. Mas temos também muito Brasil, toques de samba e MPB, a lembrar o tanto disso que vem de África. Esta mistura deve-se também ao grupo que Vieira reuniu, com consagrados como Mário Lúcio, Paulo Flores, Amélia Muge (que divide a produção com a própria Nancy Vieira e com António José Martins), gente mais nova como membros dos Acácia Maior ou de Fogo Fogo – pontas de lança de África em Lisboa – mas também músicos do País Basco, do Brasil e até da Ucrânia.
Um dos grandes méritos de Nancy Vieira, e deste disco em particular, é fazer a causa avançar sem cair na tentação da modernidade artificial. Este é um trabalho absolutamente moderno mas absolutamente intemporal. Há aqui zero de electrónica, zero de “fusão a martelo”. Tudo o que ouvimos é fluido, faz sentido, casa bem, com a intuição que só os grandes músicos têm e que os outros só podem invejar e desfrutar. Tudo servido por músicos de excelência e arranjos aparentemente simples mas extremamente ricos e bem feitos.
Gente é o primeiro disco de Nancy Vieira em seis anos e é provavelmente o seu melhor, o mais bem conseguido. E um dos necessários destaques editoriais de 2024.