A música permite tudo. Viajar no tempo, por exemplo, mesmo que para épocas em que nunca tenhamos vivido. E olhem que há viagens que não se podem perder. Aceite o convite e avance – vai gostar de ouvir o que lhe propomos.
Não é difícil imaginar tanta pinta numa só mulher, ali pelo meio dos anos sessenta. Foram muitas, como talvez aconteça em todos as décadas. Talvez, mas essa ida época terá um fascínio especial. E esta senhora, em particular, tinha estilo, voz e química incríveis, que compunham o mais perfeito ramalhete, num tempo em que viver a idade adulta deveria ter sido maravilhoso. Depois, é bom não esquecer, o apelido artístico terá ajudado alguma coisa. O pai Sinatra tinha o estatuto que todos lhe reconhecem, mas a filha não lhe ficou na sombra. Nancy representou (e representa ainda) um modo de vida, um tempo, um período onde arte e vida mundana pareciam emparelhar da melhor maneira possível.
Imaginar esse período longínquo não é nada difícil, nos dias que correm. Pelo contrário. Está agora à mão de semear e de maneira bem apetecível, tudo graças ao excelente trabalho da editora Light in the Attic, que lançou muitos dos álbuns mais icónicos da senhora Nancy Sinatra. Que gosto, que prazer, pegar em cada um desses vinis e deixar que a agulha do nosso contentamento pouse neles. Para mais, as edições são bastante cuidadas, com booklets de vinte páginas que revelam, especificamente, os discos em causa, as origens, as gravações e toda uma panóplia de informações, fotografias e afins que todos gostamos de ler e ver. Gatefolds com faixas bónus e prensagem em RTI, como todas as reedições deveriam ser. A cereja no topo do bolo, qual é? O preço, que em alguns sites nos deixa a pensar tratar-se de um inexplicável engano. Já se percebeu o contentamento de quem vos escreve, certo? Falta, então, saber que disco é esse, afinal, capaz de originar todo este entusiasmo. Pois bem, trata-se do terceiro álbum de Nancy Sinatra, o fantástico Nancy in London.
É claro que Nancy Sinatra é sempre melhor quando acompanhada por Lee Hazlewood, esse génio que merecia outro estatuto, hoje em dia. Nancy In London tem onze temas, quatro da autoria do homem de Oklahoma, sendo que num deles também empresta a sua voz, num dueto tão fabuloso que deveria ser de audição obrigatória: “Summer Wine”. E, já agora, aqui entre nós, quem não conhecesse esse tema, sendo adulto, deveria ser punido, deveria acrescentar-se no currículo, a bold, tal indecência, para que constasse para memória futura.
Afinal, o que há assim de tão extraordinário em Nancy In London? As canções, pois claro, mas isso não explica tudo. Há que notar uma outra coisa, maior e mais importante ainda: a vibrante onda apelidada swinging sixties está presente em todos os poros sonoros da totalidade das faixas. De todas, embora em diferentes doses e vibrações. Reviver esse passado, como dizíamos há pouco, nada custa. Se se fechar os olhos e se se abrir bem os ouvidos, está lá tudo. Está o encanto, a maravilha, a moda, os sonhos numa cápsula de tempo de causar inveja. Para mais, as canções são tão boas que não faria sentido deixá-las sem menção. Deveríamos referir-nos a todas, mas ficaremos por quantas nos cabem nos dedos de uma mão, para além do hino já mencionado. Vamos lá, então: “The End” é um sonho, um rodopio calmo, gentil e elegante de ternura e graça. Apetece ouvir eternamente; “I Can’t Grow Peaches on a Cherry Tree” é deliciosa, sumarenta, irresistível; “Whishin’ and Hopin’” é o que se conhece, com o toque de Midas de Burt Bacharach; “The More I See You” faz-nos abanar, rebolar até sermos o centro da festa. E finalmente, a derradeira canção, do mago Lee Hazlewood, a extraordinária “Friday’s Child”, bluesy e cativante, imponente, de personalidade forte. Enfim, esta torrente de adjetivos e qualificações não foram esbanjadas sem propósito, acreditem.
Comecem o ano de 2026 com um pé em 1966 e verão como é bom viajar no tempo. Para trás, que para a frente tudo parece tão sombrio que mais vale o brilho imaginado do sol de outras eras.