Endlessness é a mais recente bênção que Nala Sinephro nos oferece. Ouvir os seus vários continuum suspende-nos a vida e faz-nos sentir graciosos e especiais.
O que querem, a maior parte das pessoas que escutam música, são canções. Já nem discos inteiros ouvem. Apenas algumas canções, e pouco mais. Não as escolhem, antes são escolhidas por quem decide o que devem ouvir. São estas as leis dos tempos de agora. As leis da pressa, da correria, da (ilusão) de não haver tempo para quase nada. E no entanto, há resistências que borbulham, que vão ganhando forma e que respiram. É bom perceber que há ainda quem coloque um álbum a tocar para o ouvir todo de seguida, no sossego de casa. Quietos, sentados à frente do som. Esses momentos exigem um tempo mais lento, mais rico, melhor. Quando nos encontramos plenamente com um disco, ganhamos qualquer coisa que talvez seja equivalente ao céu. E depois, nunca é fácil voltar à terra. Sem pressas, sem atropelos, sem preocupações.
Serve tudo isto como forma de introduzir Endlessness, o segundo longa duração de Nala Sinephro, um disco onde não há urgências, nem canções. Há outra coisa, e “essa coisa é que é linda”.
O disco é composto por uma dezena de momentos. Dez “Continuum”, de 1 a 10. A união, o fio condutor de toda a viagem que fazemos em Endlessness, é óbvia, não deixando dúvidas a quem quer que seja. Nala Sinephro pretendeu criar um caminho de ida e de retorno perpétuos, como o próprio título parece indicar. E nós, os privilegiados de tudo isto, vamos recolhendo migalhas de som, à maneira do conto tradicional dos muito pobres Hansel e Gretel, para nos orientarmos melhor durante todo o percurso proposto, com a vantagem de aqui não haver nenhuma bruxa má que nos faça perigar nesta aventura sem fim. Antes pelo contrário. A maga Nala Sinephro trata-nos tão bem que vamos duvidando dos prazeres que vão aparecendo à flor da pele de quem ouve Endlessness. Parece tudo demasiadamente bom e belo para ser verdade aquilo que ouvimos. Os sintetizadores modulares de Nala traçam os contornos jazzísticos predominantes, assim como os saxofones de Nubya Garcia e de James Mollison, dos Ezra Collective, sobretudo nos “Continuum 1” e “Continuum 2”. Ou o fliscorne (trompete cujo tubo condutor do sopro se vai enrolando sobre si mesmo) de Sheila Maurice-Grey, que dá outra textura sonora às camadas ambientais que servem de base a várias composições do álbum. Por comparação com a maravilhosa estreia que foi Space 1.8, Endlessness é mais audacioso, mais redondo, e que exatamente como o primeiro álbum de Sinephro deve ser consumido como lenitivo para nos sentirmos melhores, mais elevados na nossa precária e rasteira condição humana. De noite, de preferência, para nos preparar para uma outra viagem, esta orgânica e rotineira, horizontal. É que a palavra sono não quer dizer apenas repouso dos sentidos, por exemplo. Ela também se usa, e neste texto tem essa valência, como expressão particular do som produzido, que neste caso tem o condão de nos enfeitiçar. É mesmo difícil sairmos desse novelo sonoro que vai crescendo à nossa frente, à nossa volta, espécie de chamamento de uma qualquer sereia moderna, que ao contrário das lendárias figuras sedutoras da antiguidade, que nos queriam mal e nos matavam, esta quer o nosso bem, o nosso contentamento, que vivamos em paz durante três quartos de hora, mais coisa menos coisa.
Endlessness é um álbum que corre em contramão, como já terão percebido. Ele caminha no sentido contrário da direção desgovernada do mundo. Não alinha em urgências. É dado a vagares e a demoras. Assim sendo, é (ou pode até ser) um disco-manifesto, à maneira dos ensinamento de Milan Kundera, na obra A Lentidão (Edições Asa, outubro de 1995). Nesse texto, há uma passagem que diz o seguinte: “Na matemática existencial, esta experiência assume a forma de duas equações elementares: o grau da lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau da velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento”, o que diz muito sobre a génese deste disco.
Ouvimos Endlessness na edição lançada em duplo vinil. É essa que temos em mãos. No entanto, para que se possa ouvir o álbum em formato físico com o máximo conforto e prazer possíveis, talvez seja preferível a edição em CD, uma vez que assim, desse modo, a viagem não se interrompe. Deverá resultar melhor, escusando-nos aos apeadeiros de mudar e virar os discos a meio do caminho a percorrer . No entanto, a versão em vinil é um objeto magnífico, uma edição muito bem cuidada.