Manning Fireworks reafirma o talento de MJ Lenderman em criar canções que misturam a melancolia do alt-country com a energia despretensiosa do indie rock.
Inicialmente conhecido pelo seu trabalho como guitarrista da banda Wednesday, Mark Jacob Lenderman tem vindo a construir uma sólida carreira a solo. O anterior Boat Songs (2022) já tinha colhido atenção suficiente para se ir ouvir os anteriores trabalhos, mas diria que 2024 é o ano de completa afirmação, com Manning Fireworks à cabeça, mas também pela participação numa das músicas do ano, “Right Back to It”, do álbum Tigers Blood de Waxahatchee.
Mas vamos ao disco, e comecemos por nos debruçar sobre “Wristwatch”, uma das canções mais marcantes, e que é amostra perfeita do estilo de Lenderman. Com uma melodia de guitarra que é ao mesmo tempo introspectiva e pulsante, aborda o tempo como um tema central. A letras é contemplativa, sugerindo o peso das expectativas e a fragilidade dos momentos fugazes, capturando a omnipresente tensão entre passado e presente, com a voz vulnerável de Lenderman guiando o ouvinte durante os seus quase quatro minutos. Sim, o relógio de pulso é um objecto essencial do nosso dia a dia, e que nos marca o passo e velocidade com que vivemos.
Saltemos para outro ponto de destaque do disco – “She’s Leaving You”, uma balada que mistura dor e aceitação com uma simplicidade devastadora. Com arranjos minimalistas e uma letra que parece extraída de uma confissão pessoal, a faixa examina o fim de um relacionamento com um olhar sincero e resignado (“No time to apologize for the things you do / Go rent a Ferrari and sing the blues”). A combinação da instrumentação discreta com a entrega vocal crua de Lenderman é certeira e conquistadora.
Posso adicionar à equação “Joker Lips”, conjugação bem esgalhada de country e indie rock, “Rudolph” e o seu questionamento pessoal (“How many roads must a man walk down ‘til he learns”). Fui ouvindo este disco sem lá ir directamente, as canções foram-me aparecendo quando em modo shuffle, e só mais recentemente montei todas as peças deste puzzle chamado Manning Fireworks. E sobretudo ao final catártico de “Bark at the Moon”, canção que “termina” aos 3:30 mas que é carregada até aos 10 minutos por um drone.
O título Manning Fireworks sugere efemeridade e explosão, e o disco reflete essas ideias tanto na sua construção sonora quanto nos temas abordados. A produção lo-fi permite que as músicas mantenham um caráter íntimo, enquanto as guitarras distorcidas e a voz de Lenderman garantem um sentido de urgência. O álbum encontra beleza na imperfeição, com cada faixa a soar como um fragmento de uma história maior, contada de forma despretensiosa, mas com profundidade. Tudo isto faz com que este seja, impreterivelmente, um dos discos do ano.