O conforto da dream pop psicadélica, na companhia da sempre confiável Melody Prochet.
A francesa Melody Prochet, que grava enquanto Melody’s Echo Chamber, cravou para si própria um nicho particular na cena musical, um local mágico onde se encontram o psicadelismo e a dream pop. As suas forças sempre foram sobretudo um extremo bom gosto na composição, na produção e na forma como nos entrega um resultado onírico e emotivo.
Já no final de 2025 deu-nos este Unclouded, o quinto trabalho de uma discografia que se foi afastando progressivamente do lado mais rock psicadélico (depois de um início de carreira com a ajuda de Kevin Parker, dos Tame Impala) a caminho de um som mais francês, mais retro, namorando com a pop de câmara.
O disco anterior, Emotional Eternal não fez tantas ondas como os anteriores, mas é possivelmente o seu melhor, aquele no qual a fórmula foi mais apurada e, sobretudo, aquele cujo colectivo era elevado pela qualidade de algumas canções maiores do que a vida (tecnicamente o álbum anterior é Unfold, também de 2022, mas feito de gravações inéditas feitas com Kevin Parker, muitos anos antes, funcionando como uma espécie de “disco perdido”).
Este Unclouded pega onde Emotional Eternal tinha parado. Habita as mesmas paisagens sonhadoras, o mesmo ambiente de pop com efeitos lisérgicos, mas tem algumas diferenças. Se a produção já era excelente, agora dá-se ainda um salto, graças ao excelente músico e produtor sueco Sven Wunder, um tipo que tem – abaixo do radar – andado a fazer alguma da música mais interessante do continente, nos últimos anos. Há um som deliciosamente retro na forma de gravar os instrumentos e, ao mesmo tempo, um brilho sedutor que tudo perpassa (o som do baixo e da bateria são qualquer coisa).
Aquilo que talvez fique um pouco aquém é que faltam aqui canções enormes. Este é um disco que funciona como um todo, levando-nos numa viagem. A sua escuta é sempre recompensadora mas há menos músicas que nos façam voltar atrás e colocar do início. Falta vício e, no lugar disso, há um grande e bem-vindo conforto. Ah, e Melody praticamente abandonou o francês, o que era parte do seu muito charme.
Ainda assim, destacamos a abertura com a plácida “The house that doesn’t exist”, a sedutora e carregada de cordas “In the stars”, o rock psicadélico negro de “Eyes closed”, a jazzística “Childhood dream”, a 70’s rocker “Memory’s underground”, a balada “Broken roses” ou a poppy “Daisy”, a fechar.
Melody continua lá para nós, disposta a acolher-nos no seu mundo intimista e sonhador, e “très cool”, como sempre.