Uma das bandas mais interessantes do underground britânico atual abalroou o Musicbox, numa noite de pós-punk puro e duro
A enchente foi lenta mas a eletricidade no ar era palpável desde o início. O Spiderland dos Slint a ecoar por um Musicbox ainda a um quarto de capacidade era um bom prenúncio: esta noite seria especial. Formados algures na década passada, os Maruja tornaram-se rapidamente uma das bandas mais faladas do pós-punk britânico recente, com um conjunto de EPs e singles lançados no seu Bandcamp, todos eles adornados com capas evocativas de um passado que, de tão distante, nos é quase alien. Mas antes, e pontualmente, os Divã entraram em palco, para grande entusiasmo dos fãs e amigos que se enfileiravam na frente.
Um quinteto com duas guitarras, bateria, baixo e saxofone, os Divã fazem parte de um movimento que tem emergido nos últimos anos com o aparecimento (e desaparecimento repentino) da formação original dos Black Country, New Road. Um pós-punk mais cinemático, com uma complexidade rítmica que deve mais ao math rock do que à repetição do funk em que cada música é um encadear de secções, sem uma adesão clara a estruturas musicais mais tradicionais.
O jovem grupo tocou as suas canções fervilhantes e explosivas com a intensidade de uma banda que está sedenta de se mostrar ao mundo e provar o seu valor. Seja no psicodrama de “Joelhos” ou no hino “Morte em Abrantes”, cujo refrão o público cantou com a ferocidade que a canção merecia, o concerto dos Divã foi um conjunto de momentos de cacofonia controlada, ritmos atordoantes, e rajadas de saxofone e guitarra. Não faltaram pretextos para moshes e crowdsurfing mas, por algum motivo, o público conteve-se mais do que seria de esperar (a predileção do público português por crowdsurfing é, para melhor ou para pior, notável). Talvez se estivessem a guardar para o que viria a seguir.
Lights out. Um silêncio aterrador. No fundo do palco, a porta abre-se e os músicos sobem numa erupção de aplausos e berros. A bateria marcial de Jacob Hayes anuncia ”The Invisible Man”, a sua atmosfera espectral a servir de pano de fundo à história de um homem que, como todos nós, se torna invisível quando esconde a sua essência de uma sociedade implacável; “The truth, it hides”. No refrão final, a letra foi trocada por um apelo a um cessar-fogo, em referência ao atual conflito entre a Palestina (e, agora, também o Líbano) e Israel. Em palco, os membros do grupo movimentam-se com o abandono de quem pratica um ritual que purgará tudo o que neles há de impuro. Harry Wilkinson, o vocalista e guitarrista, em particular, oscila violentamente entre movimentos mais elegantes e uma postura agressiva de hype man a enfatizar um drop.
A linguagem musical da banda abarca de forma orgânica o pós-punk, hip-hop e até, de certa forma, o nu metal (exemplificado pelo break de One Hand Behind the Devil), uma mistura muito particular e que torna os Maruja não só uma banda interessante, mas capaz de dar concertos que têm tanto de transcendente como de visceral. Depois de fazerem soar o alarme que dá início ao riff de baixo brutalista de “Zeitgeist”, a segunda música do concerto, mal houve um momento de descanso em todo o concerto, um frenesim de riffs para partir o pescoço de toda a gente. Seguiu-se “Break the Tension” talvez a distilação mais perfeita da música do grupo. Um saxofone serpenteante flutua por cima de uma parede de som enquanto que a recitação de Wilkinson dita o passo de um crescendo até à explosão em que saxofone, voz e baixo lutam para se fazer ouvir no meio do caos. Nos momentos mais agressivos do concerto, é surreal pensar que este tsunami de som é produzido por apenas quatro pessoas.
A meio do concerto, o vocalista anuncia que o grupo vai improvisar alguma coisa. Este lado mais espontâneo da banda é refletido em The Vault, o mais recente lançamento do grupo que consiste numa compilação de improvisos gravados em ensaios. Uns acordes, inicialmente tímidos mas rapidamente alicerçados pelo baixo emergem do silêncio, acompanhados por linhas nebulosas de saxofone, a química da banda evidente na maneira como estes param e recomeçam certos segmentos sem olharem uns para os outros. Após um crescendo lento e majestoso somos engolidos por uma nuvem de som, com gemidos fantasmagóricos irrompendo à superfície ocasionalmente. Segue-se um solo de guitarra e saxofone que aumentam de intensidade à medida que a secção rítmica vai ganhando proeminência na paisagem sonora e, tão subtilmente como começou, o improviso acaba. Foram dez minutos? Vinte? Não sabemos, mas também não importa. Fomos transportados.
Uma guitarra solitária dedilha acordes fúnebres: “Kakistocracy” é a lei que rege esta terra opressiva. O resto da banda junta-se a este lamento: “Now I can’t see/And I can’t breathe/Cos of your lies”. Tudo pára, o saxofone sustem uma nota e voltamos a cair no abismo. Já estávamos todos esgotados mas havia ainda um ritual por realizar. “Resisting Resistance”, o hino que termina o EP Connla’s Well vê os Maruja a elevar-se a proporções Godspeedianas, um grito tornado montanha, tornado oceano, acabando por se dissolver nos nossos ouvidos. As luzes acendem-se, o Spiderland ainda está a passar nas colunas do Musicbox. Saímos à rua, o ar frio na cara a lembrar-nos de que estamos vivos.
Alinhamento:
01 The Invisible Man
02 Zeitgeist
03 Break the Tension
04 One Hand Behind the Devil
05 Thunder
06 Improviso
07 Kakistocracy
08 Resisting Resistance
Fotografias: Rui Gato




























