Casa cheia para a estreia de MARO no Coliseu dos Recreios. Uma noite com sabor (finalmente) a primavera, onde a felicidade e a gratidão reinaram. E uma voz doce, salgada e irresistível, onde apetece simplesmente ficar.
Podia ficar a ouvi-la cantar dia e noite, noite e dia, sem parar. Há qualquer coisa na voz de MARO que me faz querer ficar ali, horas suspensa com ela. Na doçura da sua rouquidão, no travo a salgado do seu timbre, na forma delicada como articula cada frase. Uma voz que nunca se impõe, mas onde, lá está, apetece permanecer. Era a minha primeira vez num concerto da MARO e era a primeira vez dela no palco do Coliseu dos Recreios, que esgotou para a sua estreia.
Lá fora, uma noite com temperaturas finalmente a fazer lembrar a primavera. O prenúncio perfeito para o concerto de apresentação de SO MUCH HAS CHANGED, álbum editado em janeiro e acabadinho de estrear na Europa, em cidades como Berlim, Paris, Londres, Roma ou Barcelona. À hora certa, as luzes apagam-se e MARO saúda-nos: “Boa noite, Lisboaa!” Era a nossa vez.
Tudo começou com “Mama Used to Sing” e “I Owe It To You”, num abraço apertado aos que ficam, aos que aparecem, aos que mudam tudo sem avisar. A nós. MARO aponta para o público e desenha um coração com as mãos. Respondemos-lhe de volta. Revela que a família, para quem de facto escreveu esta canção, também se encontra ali presente, avisando-nos que isso poderia ou não deixá-la mais sensível. Ficamos felizes por ela.
Seguem-se as luminosas “SO MUCH HAS CHANGED”, “KISS ME”, “IT AIN’T OVER” e “LIFELINE”. A energia da sala intensifica-se, enquanto sentimos uma surpresa genuína do lado de lá, todas as vezes que a acompanhamos em coro. MARO põe o seu sorriso mais tímido e pede mais, apontando-nos o microfone num subtil gesto de aproximação — e sedução. Correspondemos e, no ar, multiplicam-se de novo os corações. Há uma leveza verdadeiramente sincera nesta relação, uma felicidade partilhada que nunca soa encenada. Derretemos com ela.
A meio do espetáculo, a banda retira-se e tudo se reduz ao essencial: uma guitarra e a voz de MARO. E nós já não estamos apenas suspensos, estamos completamente entregues. Ao fundo, uma simples meia-lua ilumina o palco, mudando discretamente de cor. Não precisa de mais. Mesmo sozinha, MARO enche a sala com uma naturalidade desarmante. Respiramos esperança em uníssono durante “oxalá”, acompanhamos com palmas ao ritmo de “Saudade, Saudade”, encostamos cabeças em ombros alheios ao som de “I KNOW YOU KNOW”. Houve ainda espaço para duas canções com Eu.Clides, um dos seus músicos portugueses favoritos. Estamos todos num namoro pegado.
Tommaso Taddonio, Gabriel Altério, Pedro Altério e Manuel Rocha (estes dois últimos que tiveram direito a palco só para eles no início) — a quem não se cansou de agradecer ao longo da noite — regressam ao palco para nos cantar “LOVE’S NOT TO BEG” a quatro vozes. Finalmente as harmonias por que tanto ansiava, que fazem todos os pelinhos do meu braço levantar. A sua curiosidade estética é viciante. E, quando ouvimos “We could be talking all night long, we could be dancing on our own”, de “WE COULD BE”, somos forçados a concordar.
Chegamos ao fim do concerto ao som de “we’ve been loving in silence”. Acenamos com os telemóveis, num gesto de despedida, enquanto cantamos com ela “I feel like running again, I wanna do it again”. Percebemos que não vamos ter encore e está tudo certo. A honestidade de MARO não permite truques. Despedimo-nos mais felizes do que entrámos, aos sorrisos, aos abraços e aos beijos, com a certeza de que não será a última vez que nos encontramos.
Fotografias de Inês Silva
























