O Altamont falou com Maria Reis acerca do novo disco, Suspiro, lançado na passada semana e do concerto de apresentação no dia 25 de Maio, em Lisboa.
Altamont: Após a trilogia de EPs (Chove na Sala, Água nos Olhos; A Flor da Urtiga e Benefício da Dúvida) sai finalmente um LP. Isto é sinal de uma ruptura pensada, ou uma coincidência?
Maria Reis: Eu não considero os meus outros discos EPs, mas categorizaram-nos assim, até nas plataformas digitais, nem sei bem distinguir o que é um EP, são coisas fechadas em si. Basicamente, este ano tive mais tempo para compor, porque desde o Chove na Sala todos os anos sai um disco. Desta vez houve mais tempo para escrever mais canções. Até quando eu começo a enviar as demos ao Tomé (Silva), que foi quem produziu o disco, até tinha mais duas canções.
Portanto, foi uma questão de tempo?
Sim, sim. Não vou para nenhum disco com uma ideia daquilo que quer fazer. Eu vejo os outros três como trilogias perfeitas, um em cada ano. Até em relação às capas todas feitas pela Sara (Graça), ou seja, há uma ideia também estética, uma coesão estética, para além da música. Para este disco tive mais tempo para o desenvolver, escrever no fundo, e compor, mas parte do mesmo sítio.
Do que já ouvi do disco, e comparando com os anteriores, noto uma diferença a nível sonoro e até estético, a capa, por exemplo. Pode dizer-se que houve uma calmaria a chegar a este disco?
Sim? Pois, não sei, não. Eu tinha as canções, não todas, mas quase todas, em Setembro do ano passado. E não fazia ideia, o que é que eu queria fazer com elas, como as queria gravar, mas não tinha nenhuma ideia, não me ocorria com quem é que eu queria trabalhar. E depois vi um vídeo do Tomé a tocar uma música minha, “Odeio-te”, na bateria, ele fez um vídeo no YouTube, eu vi o vídeo, mas não conhecia. Fiquei bem impressionada com as suas capacidades como baterista e depois percebi que ele também produzia. Tínhamos amigos em comum. Depois conheci-o e fiquei tipo: “OK, és tu com quem quero trabalhar.” E fomos para casa dele, gravamos tudo no quarto, acho que é uma cena fixe, porque não se percebe que é um disco gravado no quarto, eu acho que soa a estúdio.
Sim, os anteriores até soam mais crus que este.
Sim, e foram gravados em estúdio. Este à vontade que tínhamos por estarmos em casa e a capacidade que tem de tornar uma coisa, aparentemente amadora, profissional e composta, deu-nos este disco. Acho que se calhar é isso tivemos mais tempo de trabalhar nas canções, as outras foram mais imediatas.
Mas com uma energia diferente.
Aqui tivemos mais tempo de pensar, mas também honestamente, também não foi assim tanto tempo, há pessoas que demoram anos e anos. Demorei um ano, acho que não foi tão reativo. Apesar das canções em si serem coisas reativas, porque é assim que eu escrevo canções. A produção delas não foi reativa, foi mais pensada, um bocadinho mais desenvolvida a dois.

Ainda que as temáticas do álbum sejam familiares, uma das canções que me chamou a atenção foi o “Fado do Salineiro”. Há ali uma preocupação diferente na canção?
É uma canção que não é sobre mim. No ano passado, em Março, fiz uma residência em Odeleite, fica em Castro Marim, Algarve, ali perto da Costa e da fronteira com Espanha. Quando fui para lá estava mal, não estava a conseguir escrever nada, achava que estava bloqueada criativamente, e estava de facto. Tinha também aquelas ideias fatalistas, “Se calhar nunca mais vou fazer nada na vida, aquelas cenas…” A residência culminava com um concerto na igreja da aldeia, e já estava a pensar “Ai, que vergonha!” E depois, quando cheguei lá, acabei por escrever mais ou menos metade dos temas que estão no disco. Se calhar, acabei por ter o tempo e o espaço para estar comigo, não tinha internet o que também ajuda, estava só eu. E senti uma luz qualquer, era o início da Primavera, então, sei lá, Algarve, Primavera, sem turistas foi o contexto ideal, e foi daí que surgiu esta canção. Odeleite tem salinas, e lá tiram o sal de uma maneira tradicional, que é um bocado hardcore, nas horas mais quentes, até acho que é mais durante o Verão e tudo, trabalho físico, super hardcore. E eu comecei a conceber um cenário hipotético, um salineiro adolescente, comecei a desenvolver uma história, que no fundo é um conto, mas em formato canção e não é um fado. De todos os fados que eu escrevi, nenhum deles é fado, mas acho que este é o menos fado de todos. Chamo-lhe fado também por ser uma quase história e um destino, uma fatalidade da própria personagem. Acaba por ser uma balada, podia chamar-se “Balada do Salineiro”.
O fado tem mais a ver com a desgraça.
Exacto, desgraça.
Mas acaba por ser uma canção também que tem que tem alguma consciência social, certo? Isso é uma coisa que te preocupa?
Sim, é uma coisa que sempre esteve comigo, na minha vida e na minha vida como pessoa que faz canções. À minha maneira, ao meu jeito e com a aprendizagem e os erros. É muito importante para uma pessoa que vive em comunidade, estar sempre a aprender e não saber logo tudo, porque a arrogância não traz transformação. Acho que é fixe como mulher, ser-se um bocadinho arrogante, mas não na totalidade, não sei se estás a perceber? Mas acho que ao longo do disco eu revelo essa preocupação em mim, em “Coisas do Passado” e em “T-shirt”, por exemplo. A consciência social é uma coisa que está cada vez mais presente na minha vida, isto é, infelizmente, o contexto também me leva para aí. As coisas que me perturbam, que às vezes me tiram o sono e que me fazem chorar, também fico comovida com coisas que não têm necessariamente a ver comigo. E eu acho que essa empatia me move e me faz reagir.
Acho que cheguei a escrever sobre ti e dizer que tinhas espírito de Riot Grrrl.
É a arrogância. Pode ser.
É importante que haja mulheres na música com essa atitude?
Pessoas que não têm vergonha de ser quem são, adorava que toda a gente não tivesse vergonha de quem é. Ter a voz que tem para cantar como canta, ou não cantar, não terem vergonha de assumir um compromisso com a venerabilidade. Isso é a cena que aprecio mais e que pude ter no meu contexto familiar, nunca me impediram. E nos amigos que encontrei, tive muita sorte também. Mas sim, isso idealmente, toda a gente deveria ser livre de, sem qualquer tipo de pudor, ser quem é.
Disseste-me que fizeste o disco em colaboração com o Tomé Silva, esse trabalho foi só a nível de produção, não colaboraram em canções, por exemplo.
Tu não mexeste nas canções, pois não? (pergunta dirigida a Tomé) Não, eu tinha as demos, eram basicamente só guitarra e vozes. E depois, quando eu as mandei, ele começou a acrescentar bateria, que é o instrumento que ele domina, e depois quando fomos, vou dizer para estúdio, mas é o quarto dele, quando fomos começar a gravar, foi aí que vimos os baixos. Tudo isso foi tudo um processo a dois.
Já falamos um pouco sobre isto, mas como comparas este disco em relação ao resto da tua discografia? E aqui podemos não pensar só no percurso a solo, em relação a tudo.
Isso acaba por ser, vou dizer até a palavra perverso, falar da minha música e até nem consigo ter muita distância para fazer essa análise de uma forma mais verdadeira e mais composta. Mas, acho que este disco percorre várias partes de mim ou da música que eu faço. E acho também que o meu contexto, onde aprendi a fazer canções e onde comecei a tocar foi o Punk Rock. Podia ter sido outra coisa radicalmente diferente, mas foram as bandas e as guitarras e as baterias e o barulho. Mas também a cena do quarto e de viola, isto é, o meu contexto, e também das canções com dois minutos e meio, directas e económicas, esse é o meu contexto. Mas também acho, agora que tenho 30 anos, e com os anos vais adquirindo outras coisas, não é? Temos outra consciência, também de mim própria, acho que me conheço muito melhor do que quando tinha 18 anos. Mas o sítio de compor é o mesmo, acho que sou mais, não vou dizer curiosa, mas acho que tenho mais flexibilidade no geral, e isso acho que me faz levar para outros sítios que eu, se calhar antes, tinha algum medo de ir esteticamente e formalmente nas canções e por isso acho que este disco atravessa várias…. Se calhar é mais diverso nesse sentido em comparação com os outros, mas nunca sai ali do Punk Rock.

Mas, por exemplo, achas que é mais complexo do que os outros? Poderá ter a ver com a produção?
Sim, e nas próprias canções. Acho que sempre foi uma coisa que eu apreciei, e agora vou dizer que sou fã da minha própria música, eu gosto da música que faço, de fazer coisas que não são expectáveis. Como é que se diz, não ser previsível nas minhas decisões? Como é que eu vou para o refrão ou como é que eu saio do refrão? Estás sempre à procura de brincar. “Como é que eu consigo não ser previsível?”, no fundo é um jogo, que também é um jogo mental. Acho que sempre tive isso com as Pega Monstro, rearranjar as coisas de forma a torná-las mais interessantes para mim como compositora e para as outras pessoas, espero eu. Se tu sabes o que é que vai acontecer numa canção, perde o interesse.
Até há canções que nem sequer têm uma estrutura tradicional de canção.
Sim, tenho várias que não têm refrães, e isso é uma coisa que me agrada, e agrada-me também noutras música, que não são formais. Respondi à tua pergunta?
Sim. E achas que este que este disco vai ter uma aceitação da crítica tão boa como os discos anteriores?
Ó pá! Os meus amigos dizem sempre que as canções são bonitas (risos), por acaso eu sei quando os meus amigos não gostam. Eu acho que sim, estou convencida que sim, porque não? Vem de uma verdade, e acho que as pessoas que me acompanham conhecem essa verdade, tornas as pessoas acessíveis a ti e acho que isso vai nessa continuidade e em que não estou a fechar-me, muito pelo contrário, cada vez mais escancarada. E espero que as pessoas apreciem, esse é meu desejo principal que as pessoas oiçam a música e que tirem o tempo de ouvir.
Tenho lido algumas pessoas que não se consideram teus fãs e disseram muito bem destes dois últimos singles…
Apanho os haters. Faço assim um… (Maria faz nuggie imaginário aos haters)
Tu és uma artista de culto, também por causa das Pega Mostro, até que ponto é que tu gostavas de levar a tua música a mais pessoas?
É uma boa pergunta, porque imagina, no contexto de Portugal, ou manténs, ou vais para a televisão. Isso é uma coisa que não me interessa, não interessa ir para os programas de talentos ou para o Festival da Canção. Eu quero que cada vez mais pessoas ouçam a minha música, só porque gostava que elas ouvissem, não tem a ver comigo. Necessariamente não tem a ver com, claro que é diretamente relacionado com o dinheiro que eu faço, infelizmente, mas em primeiro lugar é mesmo com vontade de tocar as pessoas nesse sentido, comover as pessoas. Às vezes vou tocar em sítios que sei que muitas pessoas não me conhecem e estão lá por acaso e depois vem falar comigo e dizer que gostaram muito, e consigo ver nos olhos delas que elas ouviram a minha música e que não tem necessariamente a ver comigo, mas relacionam-se com a música em si. Isso gostava que isso fosse cada vez mais, mas em termos de ambição de subir na carreira, não. Acho que se calhar a resposta mais directa é: gostava de tocar mais na Europa e fora da Europa, num contexto independente, que também é fixe, nós ocuparmos lugares que estão lá para a gente usar, e não serem sempre as mesmas pessoas que ocupam os lugares, como acontece nos festivais em Portugal. Mas sim, acho que gostava de tocar mais, e tocar mais significa ter um público maior. Como construir esse público é que ainda não percebi. Acho que tem só mesmo a ver com fazer a minha música chegar lá, mas ainda não consegui desbloquear bem isso. Acho que é, tipo, ir fazendo e não deixar de fazer, o que dá uma trabalheira do caraças.
Até porque por aqui acabas por tocar em salas mais pequenas…
Em Lisboa depende, ainda agora estivemos em Paris e estava esgotado, mas também era aquele contexto 25 de Abril. Nunca se sabe, às vezes no Porto estão 50 pessoas e depois no Barreirense, sei lá…
O Barreiro tem ali um microclima de música…
Sim, música alternativa e também é a minha terceira casa.

Em relação ao concerto de dia 25 de Maio, o concerto de apresentação do disco, o que é que podemos esperar? O trio?
Sim, o trio. Vou ver se a Júlia (Reis) dá uma mãozinha. A primeira parte, eu não estava a ver ninguém, e depois, aconteceu a mesma coisa a Miana, que é a pessoa que vai fazer a primeira parte, lançou uma música, um cover meu no Soundcloud, sim, eu se calhar sou assim um bocado… como dizer vaidosa. Depois ouvi mais trabalhos dela, e falei com ela, ela ainda tem pouco trabalho, ainda está a começar. Eu gosto de abrir essas portas para pessoas que estão a começar e que eu vejo ali qualquer coisa de interessante, gosto de apoiar isso. Ela ficou entusiasmada, começou a produzir mais música e isso é fixe porque tem de haver mais produção de música, em todo. E pronto, acho que é isso sobre o concerto…
Bom, a última pergunta, como não podia deixar de ser, é sobre as Pega Monstro. Vai sair mais alguma coisa para além do single “Willkommen”?
Isso é inevitável, nós tocámos ainda agora em Paris e nas Damas, onde aparecemos um bocadinho em segredo. Nós nunca vamos deixar de fazer música as duas, porque também nunca vamos deixar de ser irmãs, certo? Então é só mesmo criar as condições e as ocasiões, mais do que as condições são as ocasiões para que isso seja uma coisa confortável para as duas, sem grandes banners, não quero ser mais uma que capitaliza na nostalgia. “Willkommen” era uma música que estava destinada para o meu disco, mas eu mostrei-lhe e ela mandou-me a parte da bateria e eu fiquei, “isto é, Pega Monstro”. Nós não temos de dar justificações a ninguém, não temos compromisso nenhum. O único compromisso que nós temos é connosco próprias. Ainda no outro dia, nas Damas, tocámos “Amêndoa Amarga” e eu sinto que a música ainda vive, em campaniça e pandeiro conseguimos tocar aquela música, e aquela é uma música nossa, não nos interessa estarem a reanimar, tipo respiração boca-a-boca, de uma coisa que é de outro tempo e de outra altura para nós. Se tiver de acontecer acontece. É uma constante, é uma construção, é como qualquer dinâmica de relação tipo. Respondi diretamente, é sempre assim que eu respondo.
OK. Obrigada.
Em relação ao concerto, se calhar é importante dizer que é no Jardim da Trienal de Arquitectura de Lisboa. E que as crianças podem ir, é acessível para todos não é uma coisa nocturna, porque há amigos meus que têm filhos… (risos)
Os bilhetes podem encontrar-se aqui.