Foi com Primavera de Destroços que mergulhei a sério no universo dos Mão Morta. Um disco sombrio, intenso, teatral que ainda hoje o volto a ouvir quando a primavera teima em saber a inverno.
Primavera de Destroços foi o primeiro disco dos Mão Morta que ouvi de uma ponta à outra, com atenção total — e que me levou a assistir a um concerto da banda. Claro que os Mão Morta não eram para mim uma descoberta: lembro-me bem de ver o videoclipe de “Budapeste” no Canal 2, nos anos 90.
De facto, a sonoridade de “Budapeste”, uma canção cantada, apresentava-se muito distante destes destroços primaveris — um disco teatral, denso, soturno, muito falado e pouco cantado. É um álbum que marca o regresso do grupo às canções individuais, juntando o rock de sempre com as influências eletrónicas que já vinham do anterior, Müller no Hotel Hessischer Hof. A produção, a cargo de Miguel Pedro, intensifica essa densidade da banda, com uma atenção meticulosa aos detalhes sonoros e uma abordagem arrojada na utilização de efeitos e texturas.
Logo nos primeiros acordes de “Cão da Morte”, o meu tema favorito do disco, percebemos que os Mão Morta escolheram, mais uma vez, mergulhar em ambientes sombrios. O tom declamatório da voz de Adolfo Luxúria Canibal faz com que, por vezes, a canção tenha um tom erótico — mas talvez, aos 19 anos, tudo nos parecesse erótico.
O encanto do disco é mesmo a sua toada claustrofóbica. Na altura em que os discos se ouviam do princípio ao fim, ouvir as 10 faixas de Primavera de Destroços, lançado na primavera (e escrito aqui, noutra primavera, 24 anos mais tarde) chutou-nos para aquela depressão típica da época, quando o calor começa a apertar mas os nossos pensamentos negros, sombrios e invernosos ainda não foram liquefeitos.
Há quem diga que é um dos melhores discos dos Mão Morta – ganhou o Prémio Blitz de 2001 para Melhor Álbum Nacional (quando ainda era O Blitz e não A Blitz — e isso fazia toda a diferença). Para mim, é de facto o disco que me apresentou a banda como uma das melhores em Portugal. E embora me tenha distanciado do grupo — pelo menos até este ano e Viva La Muerte — é a Primavera de Destroços que recorro frequentemente.