O sucesso que atirou os Mão Morta do pequeno circuito alternativo para o mainstream.
Os anos de 1991 e 1992 foram paradoxais para os Mão Morta. Por um lado, como se podia constatar do disco O.D. Rainha do rock n roll and crawl, havia vitalidade criativa e sangue na guelra, e lá por fora o grunge e as sonoridades alternativas estavam a mostrar grande potencial de massas; por outro, foram anos em que, no total, os Mão Morta subiram a palco menos de meia dúzia de vezes. Parecia que o mundo não estava a ouvir, e a banda não era suficientemente marketizável para o circuito de concertos mais ou menos institucionais que começava a ditar quem tocava e onde.
O desânimo tomava conta do grupo, mas a criatividade e a energia ainda lá estava. Os Mão Morta, de certa forma, eram uma banda com algo a provar. Adolfo Luxúria Canibal andava há algum tempo a namorar uma ideia, criar um álbum conceptual com os temas a centrarem-se cada um numa cidade diferente, e na qual acontecia um crime. Nesse momento de dúvida, Adolfo partilhou a ideia com o manager Vítor Silva, que não hesitou: “façam um disco novo que eu edito-o!”, segundo é narrado no livro “Mão Morta, narradores da decadência”, de Vítor Junqueira.
Com esse estímulo, as incertezas ficaram para segundo plano e os rapazes atiraram-se ao trabalho. E, desta vez, as condições eram outras. Vítor Silva assegurou os Estúdios Angel, em Lisboa, à altura do melhor que havia no país, e deu-lhes um tempo que nunca tinham tido: dois meses para gravar mais um para as misturas. Um luxo, perante aquilo a que estavam habituado.
Juntou-se outro factor importante, a presença na produção de José Fortes, antigo proprietário dos estúdios Angel e responsável de som pelo espaço, que trabalhou em Mutantes s.21 e em vários outros discos posteriores dos Mão Morta.
Mas o que é este mutante em forma de disco?
Bom, é impossível falar de Mutantes s.21 sem falar de “Budapeste”, o single que mudou tudo, ou quase tudo. Uma história de uma noitada acelerada na capital húngara, “de bar em bar, a aviar”, com um “charro aqui, charro ali, mais um vodka para atestar”, sempre na companhia do Peste e do Buda, “sempre a rocka rollar”.
Adolfo sabia que tinha ali um single com potencial, tendo partido de uma inspiração nos Velvet Underground, mas tocando num ponto sensível do zeitgeist de então. Os jovens estavam prontos para uma sonoridade rock, dura mas cantarolável, com uma letra acerca de excessos e negrume.
Deu-se ainda a feliz coincidência de vivermos num momento em que o Pop-Off, programa da RTP, produzia um videoclipe de uma banda ou artista português por semana, e assim chegou a vez de “Budapeste” ser contemplado. A pouco tempo de termos o nascimento da primeira televisão privada, a SIC, os dois canais públicos mandavam no gosto e eram vistos por toda a gente. O clip desbragado, ainda que meio amador, de “Budapeste” estava em todo o lado, com fortíssima rotação no programa “Vira o Vídeo”, com apresentação alternada de Henrique Amaro, de Zé Pedro e de Xana, dos Rádio Macau. A tabela dos clips preferidos era definida pelos telefonemas dos espectadores, e “Budapeste” reinou sem contestação.
Mas já voltamos a esse momento e a esse single, porque o disco vale bem como um todo. É um registo mais “profissional” do que os Mão Morta haviam feito até então, mas sem que isso signifique qualquer falsidade ou polimento. Apenas as canções estão mais definidas, o som mais homogéneo, o conceito mais apurado. Musicalmente, de Lisboa a Berlim, o rock é rei e senhor (com algumas excepções, como em “Istambul”), e Adolfo em nada refreou a sua veia poética distorcida, em histórias de sexo, drogas e algum rock n roll. Mutantes s.21 é um disco nocturno, negro, excessivo, por vezes grotesco mas com toques de sentido de humor, num conjunto de temas cujo grande mérito foi ser bom e ter sorte, ou seja, estar no sítio certo à hora certa.
Ao longo de menos de 40 minutos, Adolfo vai relatando aventuras e desventuras em nove cidades, oito reais e uma, a última, imaginada, “Shambalah”. E o que temos, sendo os Mão Morta os nossos guias, não são os postais ilustrados turísticos, uma espécie de Jogos sem Fronteiras conduzidos pelo sempre simpático Eládio Clímaco. Os que nos é dado é a noite, o outro lado, o ‘underbelly’ escuro, sujo, perigoso e excitante. Adolfo revelou que tinha visitado todas as cidades em causa (e Shambalah, eventualmente, em sonhos) mas rejeitou que se tratasse de leituras literais e autobiográficas do que por lá viveu. Ficou, sim, uma revoada impressionista que inspirou a sua pena, em Lisboa, revisitando não tanto as cidades mas aquilo que, emocionalmente, a imagens destas lhe traziam à mente.
Ficou, necessariamente, como o disco mais conhecido dos Mão Morta e um marco absolutamente incontornável do rock português dos anos 90 e não só.
“Budapeste” foi uma espécie de momento “Smells like teen spirit”, que trouxe os Nirvana do mais recôndito alternativo para os grandes palcos e para o mainstream, embora a diferença de escala tenha de ser levada em linha de conta. Isto para dizer que Mutantes s.21 foi um êxito, de vendas e de crítica, e asseguraram que os palcos de concerto voltavam a ter, e de que maneira!, lugar para as missas negras do rock n roll dos Mão Morta.
Depois deste sucesso altamente improvável, as majors estavam à porta.