K7, também intitulada Mão Morta, não é mais que uma cassete, a soma das seis gravações feitas até então pela banda.
Olhemos para a história da música, caro leitor. Há quem tenha nascido artificialmente no playback das televisões, qual Donny Osmond de laca no cabelo e Puppy Love, ou a gravar em interfaces caseiro ligados ao garage bands, processos solitários contemporâneos que culminam em músicas de três minutos com ganchos em reels e tiktoks de 15 segundos. Os Mão Morta nasceram em cima do palco, no meio de suor, cheiro a cerveja, tabaco e chamon, sem qualquer gravação para mostrar além daquele espectáculo visceral e hipnótico. Tudo o resto foi em catadupa: em 1986, no II Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous, venceram o Prémio de Originalidade; em maio de 1987, venceram a categoria “Melhor Banda Sem Registo Em Vinil” da RUT – Rádio Universidade Tejo, o que lhes abriu a porta do estúdio para “Sitiados” e “E Se Depois”, os seus primeiros temas gravados. Dois meses depois, gravam “Oub’lá”, “Véus Caídos”, “Abandonada”, “AUM”, patrocinados pela agência Malucos Da Pátria, de Zé Pedro (Xutos e Pontapés), Pedro Ayres Magalhães (Heróis do Mar) e o manager Vítor Silva, que se tornaria agente.
Assim nasceu a K7. Intitulada Mão Morta, era uma… cassete, a soma das seis gravações feitas até então pela banda. Servia para mostrar a música de Mão Morta fora dos concertos barulhentos e malditos, mas com o mesmo espírito, cravada em fita magnética, comprada e partilhada, de mão em mão, a viralidade possível de tempos analógicos.
Uma banda que gravou por tocar ao vivo, não ao contrário – e já andavam há algum tempo na estrada. Reza a lenda (ou a biografia oficial dos Mão Morta) que o conjunto nasceu da vontade do baixista Joaquim Pinto. Em Outubro de 1984, vê os Swans ao vivo em Berlim. No fim do concerto, Pinto conhece o baixista Harry Crosby, que aponta um atributo importante: o português tem cara de baixista. Ao regressar a Braga, compra um baixo e forma os Mão Morta com Adolfo Luxúria Canibal na voz e Miguel Pedro na guitarra. Antes, tinham outro projeto: PVT Industrial, um grupo de berbequins e ritmos de teares. Sim, Pinto tocava berbequim elétrico.
Em Janeiro de 1985, estreiam-se ao vivo no Orfeão da Foz, Porto. Industrial, cru, caótico e inconformável, a música dos Mão Morta marcou – e K7 transporta-nos para o espírito desses primeiros tempos. A começar pela diferença de estúdios: esta versão quase demo de “Sitiados” e “E Se Depois”, gravada e misturada no Hipolab Studios em Oeiras, é mais crua do que a do disco de estreia. “Sitiaaaaaaaaaaaados”, berra Luxúria Canibal, descontrolado, numa agonia quase gutural, despida de reverb e honesta como um conjunto de miúdos de 20 e poucos anos com vontade de partir tudo. “Oub’lá qu’é que ’tás a fazer? Quero é que tu te bás foder!”, cantou mais tarde no Edit Studio, Amadora, onde os Mão Morta gravaram e misturaram as restantes canções, quase todas regravadas para o disco de estreia, à exceção de “Abandonada” e “Véus caídos”, regravadas em Mão Morta Revisitada (1995), os primeiros sinais do cativante spoken word de Adolfo Luxúria Canibal.
E caro leitor, se Adolfo Luxúria Canibal não tem medo de assumir um pessimismo pelo futuro, de olhar para “o centro comercial em construção, aquele que dizem vir a ser o maior da Europa, com não-sei-quantas lojas e não-sei-quantos andares” e olhar rezingão e inconformado para o fim dos sítios, das pessoas, dos hábitos, da comunidade, também eu não terei.
Este é o primeiro registo áudio dos Mão Morta, editado um ano antes dos disco de estreia, com o mesmo nome. Em 2016, a banda lançou “K7” em vinil, uma edição limitada a 300 cópias – e esgotadíssima.