Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável é um disco de culto dos Mão Morta – não é globalmente tão celebrado como outros, mas é uma etapa conceptual que, mais de 25 anos depois, faz ainda pleno sentido.
Para todos aqueles que, como o escriba destas linhas, nasceram na segunda metade da década de 1980, este terá sido um dos primeiros contactos com o grupo de Braga – “Em Directo (Para a Televisão)”, o single de avanço, não foi propriamente um campeão das rádios para as massas, mas a sua guitarra veloz e mensagem sobre a globalização (ainda sem redes virtuais e com a Internet longe de chegar ao ADSL) rodou bastante nos circuitos mais alternativos.
Disco que oscila entre o rock mais direto (“As Tetas da Alienação”, “Vamos Fugir”) ou um certo pós-rock (“É um Jogo”, “Aldeia Global”), Há Já Muito Tempo que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável foi um momento particularmente político para o grupo – são amplas as referências a revoluções e revoltas, tendo a mediatização televisiva e uma certa ideia de desencanto na globalização como pano de fundo para a obra.
É um disco musicalmente coeso, embora sem grandes surpresas, mas é no conceito que o trabalho se destaca – há, no fundo, um todo que supera a soma das partes, o que nem sempre acontece no universo Mão Morta.
Este foi o último disco gravado pelo grupo no milénio passado – se, já na altura, definiam o ar que nos rodeia como irrespirável, que dirão os Mão Morta do presente dos últimos acontecimentos mundiais e de toda a atualidade que nos entra televisão (e ‘smartphone’) adentro? A pergunta poderia ser retórica, mas felizmente há o novo Viva la Muerte! como resposta.