Prometiam que iam ser breves e cumpriram, não avisaram é que no final iríamos estar derreados.
Um encontro de amigos com mais de 40 anos e uma vontade incontrolável de fazer barulho – foi essa a génese dos Mães Solteiras, uma urgente saudade punk — Ricardo Martins propôs a André Henriques regressar à fúria sonora, e com Gaza (Pedro Cobrado) no baixo e Quim Albergaria na voz, o quarteto começou a dar vida a um som que é, ao mesmo tempo, herdeiro e reinventor das tradições do punk e do hardcore, um nicho que andava meio que abandonado no cancioneiro nacional.
Gravado em apenas um dia e meio, Vamos ser breves é um registo abrasivo, nervoso e sem desperdícios: 13 canções que somam cerca de 29 minutos de crueza punk. Cada faixa parece acumular a promessa contida no título — brevidade como manifesto e método (como aliás, está na cartilha do género). Desde a abertura com “Pedra fedelho”, passando por hinos concisos como “Não peçam horas extra a uma mãe solteira” e “Sala de espera”, o disco não perde tempo em articular crítica social, introspecção e humor cortante.
As letras — muitas vezes sarcásticas, outras vezes ferozmente diretas — abordam temas contemporâneos como precariedade laboral, economia do cuidado, habitação ou o quotidiano sufocante das grandes cidades, sempre com uma postura que remete tanto para a herança de bandas como Black Flag ou Fugazi, quanto para sotaques inusitados na cena portuguesa. Ficam ainda na retina alguns versos como “Eu tenho uma casa com pernas que foge de mim” e a canção dedicada a Alcindo Monteiro, jovem assassinado há 30 anos em Lisboa, por um grupo de neonazis.
Ao vivo, os Mães Solteiras trazem essa energia para o palco sem filtros: quem os viu na Casa Capitão no passado mês de Janeiro descreveu a coisa como sendo curto, intenso e explosivo, com cada acorde e cada grito de Quim a reforçar a sensação de comunidade e urgência que o disco já prometia. A banda, longe de se acomodar ao estatuto de “projecto de garagem”, está aí, para questionar de mundo que rodeia e gritar perante as injustiças do dia-a-dia.