Um álbum que nos faz ouvir música e pensar. Um trabalho de questionamento interior que dá pano para mangas no exterior. Um olhar para o outro lado da masculinidade que desbrava caminho para rebentar com estereótipos.
O que vem, afinal, a ser isso de “ser homem” nos dias de hoje? Como é que se faz essa construção? Qual é o caminho? Que passos são precisos? Qual é o contributo da sociedade e até que ponto é exercida uma pressão carregada de estereótipos e artifícios? Sobre tudo isto e muito mais reflete O Homem Triste, mais recente trabalho discográfico do luso-brasileiro Luca Argel, que partiu da residência artística e da estreia no Cine Teatro de Amarante, já passou por outras salas (Viseu e Matosinhos) e vai estar no Theatro Circo em Braga (28 de fevereiro) e no Maria Matos (2 de março). Nestes dois últimos casos, com a participação especial de Moreno Veloso, filho de Caetano e produtor do disco.
Como o próprio reconheceu na TSF, pela primeira vez vira o espelho para si e, sabendo bem na pele o que é enfrentar os desafios inerentes a um homem, deixa a interpretação e crítica do mundo lá fora para cantar acerca do “labirinto da pressão social exercida sobre os rapazes” na construção de uma “masculinidade tradicional, hegemónica e tóxica”. No fundo, ideias feitas que, na educação em casa, na escola ou via meios de comunicação, procuram omitir as fragilidades de um ser humano como outro qualquer e vincam o falso caminho de uma “máquina de trabalho, de desempenho físico e sexual”. Neste labirinto que é um colete de forças, muitos rapazes crescem sob recalcamentos e ideias repressivas. E, tantas vezes em adultos, o resultado fica expresso nas trágicas estatísticas de comportamentos de risco e tipos de violência, na esmagadora maioria das vezes exercida sobre as mulheres.
O cantautor reconhece que algumas músicas já estavam escritas, mas faltava-lhes um conceito agregador. Ver as mudanças que o seu afilhado revelou depois de algum tempo na escola, tornando-se mais agressivo, foi um alerta. E o regresso à tese de mestrado de Argel, dedicada ao machismo em Vinicius de Moraes e publicada em livro apenas em 2025 (com o título “Meigo Energúmeno”), fez nascer outras canções. São nove, recheadas de provocações, tal como o merchandising, que o artista decidiu ser todo em rosa para estilhaçar logo outro enorme estereótipo artificial e movido por interesses comerciais: o das cores mais “apropriadas” para menina ou menino. Luca relembra como no início do século XX o rosa era considerado a cor adequada para meninos por ser uma derivação mais clara do vermelho, mais forte, enquanto o azul era a graciosidade e, portanto, “mais própria” das meninas.
“O Homem Triste” abre o álbum homónimo e o seu primeiro verso, com autorização do próprio, é de uma canção de Manel Cruz intitulada “Canal Zero”, do disco O Amor Dá-me Tesão / Não Fui Eu Que Estraguei. Depois desfilam “Primeiro Mar”, “Tive de Mentir”, “É Pedir Demais”, “Homem (A Canção)”, “Meu Irmão”, “Arqueologia de Armário”, “Se Acabou” (e aqui brinca com uma problemática frase numa canção do Poetinha – “as mais feias que me perdoem, mas beleza é fundamental” – e canta “os mais alegres que me perdoem, mas tristeza é fundamental) e “Quando a Cura Começa”. O tom genérico é de enganosa suavidade e venenosa ironia que, de facto, colocam o dedo nas várias feridas da masculinidade, incluindo “o preço estúpido e desnecessário” pago por quem passa a vida a esconder a sua vulnerabilidade.
O disco inclui o chamado “Mapa do Homem Triste”, um “complemento, espécie de representação visual e cartográfica da paisagem e do universo emocional da masculinidade”. Um conjunto de “domínios, perigos e rotas de fuga”, delimitados pelos Mares do Eu e do Outro, com uma lista de nomes como Monte Falo, Parque da Virilidade, Praia do Guerreiro, Deserto da Insegurança, Grutas do Silêncio, Lagoa da Terapia, Poço dos Desejos Reprimidos, Pântano dos Suicidas, Vale de Lágrimas (que é seco), Serra Rosa, entre outros. Gravado “meio no Rio, meio em Lisboa”, tendo Pedro Sá, “o guitarrista favorito de Caetano”, como um dos participantes, além de uma orquestra, este trabalho sucede a Visita; Sabina; Samba de Guerrilha; Conversa de Fila; Bandeira e Tipos que Tendem para o Silêncio.
São conhecidas as colaborações de Luca Argel com Filipe Sambado, A Garota Não, Ana Deus, o Coro de Cante Alentejano do Orfeão Universitário do Porto ou DJ Keso, mas também a participação em projetos de tributo a José Mário Branco ou Zeca Afonso. O seu trajeto não é feito só de música e poesia, tem bem expressas as marcas do ativismo social e aqui se reafirma esse compromisso. Que pode até levá-lo a figurar na lista de melhores do ano. Porque tem o que é preciso para isso: música, letra e ritmos que nos ganham para uma escuta em loop; um tema de reflexão cada vez mais na ordem do dia; uma coleção de provocações. A propósito, “mais vale ser homem do que ser feliz?”