Um disco bonito e luminoso, como resposta à fúria do anterior Metal Machine Music.
No final de 1975, Lou Reed era um homem acossado. O seu último disco, o altamente experimental e provocador Metal Machine Music foi terrivelmente recebido, levando as lojas a devolver as encomendas e a editora a perder muito dinheiro. Mas esse era apenas um dos problemas do homem que, naquele momento, não sabia quem era.
Nas suas próprias palavras: “Era 1975 e eu estava a ser processado pelo manager e pelo seu irmão produtor. Tinha editado um álbum chamado Metal Machine Music que teve um anormalmente alto nível de devoluções e que foi tirado do mercado passadas três semanas. Tinha zero dinheiro e zero guitarras. Os roadies tinham-nas levado depois de não terem sido pagos. Devia dinheiro a toda a gente, incluindo ao sindicato dos músicos”.
Esta é a descrição que Reed faz do seu estado de espírito então, e surge numa das recentes reedições de Coney Island Baby, o disco que faria de seguida e de que tratamos aqui. Junte-se a este caldo de problemas o facto de o músico não ter pago impostos nos cinco anos anteriores e ter o IRS a bater-lhe à porta, e ele sem forma de cumprir as obrigações.
Naquele momento terrível, de dúvida e medo total, valeu-lhe a última tentativa de Ken Glancy, presidente da editora RCA e amigo pessoal de Reed. Meteu-o num hotel e disse-lhe: “escolhe um estúdio e vai gravar um disco de rock n roll”. Só lhe fez uma exigência: por favor, nada de sequelas de Metal Machine Music!
Lou Reed é teimoso, muito teimoso, mas não era estúpido. Viu que não só não tinha nenhum plano melhor como percebeu que estava a receber uma escapatória dada por alguém que realmente lhe queria bem. Para além disso, no meio de toda a confusão, mergulhar no trabalho de um novo disco era um bom plano para fugir de tudo.
O resultado é um disco curto e enganadoramente simples. São apenas oito músicas, nas quais regressa o sentido lírico de Reed e o seu talento para escrever canções. O registo é de um rock contido, chamado até por alguns de soft-rock, servido por uma produção imaculada, com o músico a voltar às bases depois das experimentações anteriores.
Coney Island Baby é talvez o disco que mostre o Lou Reed mais exposto, menos abrasivo, mais sensível, tratando de temas como o amor e a nostalgia dos tempos mais simples da infância. É claro que, tratando-se de quem é, há sempre alguma ironia nas letras, mas o sentimento geral é de uma verdadeira honestidade.
Reed, para sempre o homem que será conhecido pela explosão criativa que foram os Velvet Underground, era um músico de muitos territórios. Tanto lhe interessava o som mais alternativo como a música pop, o glamour e a sarjeta, a noite e o dia. Em Coney Island Baby explora sobretudo o rock mas também a balada, os blues e até o doo-wop da sua infância. Não há aqui nada de experimental ou de agressivo, apenas um músico magoado e cheio de dúvidas a mostrar que pode portar-se bem, e divertir-se enquanto o faz.
E temos de falar do som deste disco, da sua produção. A banda é curta, Reed mais três músicos, e ouvimos cada um dos instrumentos, com o baixo e a bateria bem presentes. É um excelente exemplo do que é um bom som de estúdio dos anos 70.
Só Lou Reed poderia fazer um disco tão acessível como Coney Island Baby depois de atirar Metal Machine Music ao mundo. Um pouco de dia brilhante depois da noite metálica e escura.