Um mashup Oasis/Stone Roses que fica aquém do que a ideia parecia prometer.
No papel a ideia faz sentido. John Squire anda meio perdido desde o fim dos Stone Roses – tendo mesmo passado mais tempo a pintar do que a tocar – e Liam Gallagher precisa de um parceiro musical, mesmo que os seus discos a solo tenham tido bastante sucesso. Mais, o cantor nunca escondeu a sua enorme admiração pelo guitarrista, mentor e compositor principal dos Stone Roses, tendo-o convidado várias vezes para tocar em concertos seus. Portanto, sim, em teoria havia aqui uma premissa que podia dar algo muito bom: uma espécie de mashup de Roses e dos Oasis, um retorno glorioso ao período (88-95, por aí) em que a música de guitarras made in UK dominava o mundo.
A ideia partiu de Squire, que tinha alinhavado umas ideias de canções e que precisava de quem as cantasse. Liam, nos intervalos dos seus concertos e das súplicas públicas por uma reunião dos Oasis, respira melhor num ambiente de banda e disse logo que sim perante a hipótese de gravar com um dos seus ídolos (tendo chegado a dizer, mesmo à Liam, que seria o melhor disco dos últimos largos anos).
O problema é que, entre o papel e o que veio a ser a realidade, vai um longo caminho.
Aquilo que mais debilita este disco e o impede de ser realmente bom é aquilo que faz quase sempre a diferença: as canções. Na sua maioria, o que temos aqui são soluções estruturalmente fáceis e algo gastas, dentro do cânone pop-rock, mostrando alguma falta de imaginação. É claro que todos os temas são suportados e tornados melhores pelo rendilhado sublime da guitarra de Squire, que aqui troca quase sempre o centro do palco por uma filigrana discreta mas sempre interessante, que dá espessura ao que se ouve. Mas, se olharmos para lá da pintura bonita e espreitarmos para dentro do capô, para aquilo que faz a máquina andar, há pouco que nos entusiasme e surpreenda. Quando se tiram os efeitos e se reduz as canções ao seu essencial, a habitual riqueza melódica de Squire (autor dos temas) está algo ausente. E, por favor, não falemos sequer das letras.
Isto não quer dizer que este seja um disco mau. É até bastante agradável de ouvir e uma forma de matarmos saudades destes dois maduros de parka. E, aqui e ali, há motivos de interesse que elevam o nível médio. É o caso de “Raise your hands”, algo básica mas com um feeling glam psicadélico interessante; da pop certinha de “Mars to Liverpool”; do blues com um forte sentido Lennon de “I’m a wheel”, que infelizmente é servida por um refrão básico; e do do single “Just another rainbow”.
Esta merece uma explicação, porque é de longe a canção mais Stone Roses de todo o disco. Desde o arranque, clássico, até ao momento em que Squire, por uma vez, permite que a música fuja da estrutura pop-rock habitual para arrancar numa das suas magníficas deambulações de groove e guitarrada eléctrica, tudo com um sabor psicadélico.
E, neste ponto forte, está à vista o ponto fraco do disco. John Squire está demasiado contido, demasiado certinho, demasiado amarrado e pouco exploratório. Ele próprio disse, numa entrevista recente, que está muito orgulhoso do seu trabalho de guitarra neste disco, exactamente por estar mais contido e menos espalhafatoso. O problema é que esse é um dos seus grandes pontos fortes, a junção entre groove (que saudades da secção rítmica de Mani e Reni, dos Stone Roses!) e linhas melódicas fantásticas da sua guitarra líquida de electricidade.
Perto do fim deste texto, falámos pouco de… Liam Gallagher. Bom, faz um trabalho competente, atirando-se às fracas letras com uma convicção que faz com que elas pareçam menos más. Como vocalista, tem uma voz bem mais fiável do que a de Ian Brown, diga-se (o que pode ser comprovado por quem viu os Stone Roses ao vivo), mas o que ganha aí perde inapelavelmente em carisma na forma como Brown dá ginga a todas as palavras que entrega.
Ou, se calhar, éramos nós que queriamos um bom disco de Stone Roses e estamos a ser injustos. É possível.
Liam Gallagher John Squire é um disco interessante, que merece sem dúvida a escuta dos fãs de rock britânico, mas que não consegue estar à altura do que esta combinação prometia.