Quando a música é grandiosa (Queen), graciosa (Paul Simon) ou excêntrica (Radiohead) já se fala na “composição”. Mas, quando é simples, carismática ou mais leve, raramente se tem o compositor em consideração. Mas digo-vos, Come on Feel The Lemonheads contém alguns dos momentos mais brilhantes da tradição da música pop, demonstrando que com pouco se faz muito.
Primeiramente, há que colocar os factos em cima da mesa. Apesar de se apresentarem sempre como uma “banda”, os Lemonheads acabam por ser apenas uma pessoa: Evan Dando. Compositor-mor e pilar imperecível desta “banda” que, desde 1987, sofreu mudanças de pessoal com uma regularidade quase anual.
Evan parece ser o típico tipo descontraído, brincalhão e desmiolado, mas é dotado de uma aguçada sensibilidade e talento, que eram amiúde obstruídos pela sua invejável estatura e cabelos loiros. Aliás, Evan foi votado como uma das “50 pessoas mais bonitas de todo o mundo” pela famosa revista People em 1993, precisamente no ano de lançamento de Come On Feel the Lemonheads. Embora isso o tenha tornado um cobiçado sex symbol, desviou o público da sua música. No entanto, graças ao sucesso esmagador de “Into Your Arms”, o álbum chega à posição nº56 do Billboard e torna-se recordista.
Uma música simplória de apenas três acordes a chegar tão longe, quando, nos anos 90, reinavam novos e excêntricos estilos musicais como o grunge, o funk rock e o shoegaze? Embora isso seja uma ótima questão, caro leitor, acima de toda a excentricidade, esta foi uma época que viu nascer da aparente incapacidade técnica uma rica fonte criativa.
Os Lemonheads escolheram, ao lado dos Luna, dos Teenage Fanclub e de muitos outros grupos, deixar a sua marca através da inventividade: a partir de simples acordes e mínimo conhecimento teórico fizeram nascer peças únicas de música que davam continuidade à tradição pop minimalista que se iniciara com os Velvet Underground – certamente uma inspiração para todas as bandas acima referenciadas. Afastaram-se dos desnecessários acessórios e focaram-se apenas no essencial: canções bem escritas, com melodias que fiquem na cabeça e letras carismáticas.
“Great Big No”, “Big Gay Heart”, “It’s About Time”, “Dawn Can’t Decide”, “Being Around” – todas composições de excelência. A maioria trata o desgosto com bom gosto e a ânsia do amor jovem na sua indulgente lamechice. E muitas vezes fazem rir. A escrita de Evan leva sempre como ingrediente essencial um aguçado sentido de humor: eficaz amaciador para assuntos mais ásperos. Aliás, “It’s About Time” ainda me apanha desprevenido quando Evan, na sua descontração de surfista californiano, profere: “Patience is like a bread I say, “I ran out of that yesterday”. A sua linguagem desleixada e imagens mundanas tornam tudo o que diz próximo e profundamente relacionável – mesmo quando não o é.
Ainda assim, com tantos originais de qualidade, os Lemonheads são hoje lembrados por músicas de outros – “Mrs. Robinson”, uma versão incluída no álbum anterior, It’s A Shame About Ray, original daqueles dois, e o já referido “Into Your Arms”, uma versão da banda australiana Love Positions que a maioria das pessoas ainda pensa ser um original da banda. Estes são os seus dois maiores hits.
São boas versões, não digo que não. Mas ambas estão longe de ser o que de melhor a banda produziu. Foram mais longe. Evan escreveu canções mais merecedoras da memória eterna que a estas duas foi atribuída. Por isso, façam justiça às outras catorze, oiçam Come On Feel The Lemonheads e cantem as suas letras como terão feito, em 93, alguns adolescentes histéricos, num descapotável, a caminho da praia. Deem a Evan Dando a admiração que não recebeu.