A voz dos Stereolab regressa com mais uma incursão por terrenos que lhe são musicalmente familiares. Kraut, pop, ié-ié e experimentação, num disco adulto, coerente e letrado.
Falar da francesa Laetitia Sadier é falar, necessariamente, de Stereolab, um dos projectos musicais mais coerentes e mais interessantes surgidos nos anos 90. Ao longo de 10 discos, o último dos quais em 2010, os Stereolab desenvolveram a sua linguagem musical muito própria, uma fusão retro-futurista e ultra-elegante do ié-ié dos anos 50 e 60 com a aventura mecânica do krautrock da década seguinte.
Sadier foi co-fundadora e a vocalista desse extraordinário grupo e, mesmo agora, o seu timbre transporta-nos necessariamente para esse universo, de tal forma acabou por definir-lo.
Com os Stereolab em pausa oficial (provavelmente acabaram, mas ainda ninguém mandou a carta), Laetitia não tem parado. Lançou vários discos a solo e regressa agora com um “novo” grupo com alguns velhos colaboradores. Este Source Ensemble andou a beber na mesma fonte que os Stereolab (“Undying Love For Humanity” abre o disco com o registo mais parecido da sua antiga banda), necessariamente, embora com um cardápio menos coerente e ligeiramente mais diversificado.
Kraut, easy-listening, pop, ié-ié, exotica, tudo isto e mais alguma coisa cabe nesta rodela com a chancela da sempre recomendável Drag City Records. O grande trunfo de Laetitia Sadier, que canta maioritariamente em inglês mas também em francês – com aquele seu tom entre o coquette e o austero – é que é possível meter isto no caldeirão sem que aconteçam duas asneiras altamente prováveis: que ficasse uma misturada sem nexo ou que pudesse resvalar para o pastiche de baile à beira da piscina.
Nada disto acontece, felizmente, e Finding Me Finding You é um trabalho de corpo inteiro, entre a pop e a aventura sonora (a mutante e lindíssima “Reflectors”, uma balada que parece não fugir da matriz mas que vai sempre evoluindo, e a kosmische “Comitted”, entre outras) , com aquele irresistível toque retro que mentalmente tanto nos leva aos tempos da corrida ao espaço como aos de Berlim do muro.
Este é essencialmente um álbum de texturas e de sensações, mas tem espaço para as canções, como em “Love Captive”, um raro dueto com Alexis Taylor, dos Hot Chip.
Finding Me Finding You não vai mudar a vida de Laetitia Sadier. Benção ou maldição, a sua carreira será sempre julgada pelos fãs de Stereolab, e este disco é uma boa forma de matar saudades. Quem não conhece a sua antiga banda, muito provavelmente, nunca ouviu falar dela e não vai sequer dar uma oportunidade. O que será uma pena, porque temos aqui pop (no sentido mais lato do termo) adulta, madura, inteligente e letrada.
Coisa rara, nos tempos que correm, e que deve ser acarinhada.