O mais recente disco de Ladytron leva-nos ao pulsar da pista de dança, cheio de irreverência e relembrando porque são um dos nomes maiores da música de dança.
São já oito os trabalhos de estúdio que Ladytron produziram em cerca de 20 anos de carreira. Ao longo desses discos, foram experimentando várias correntes da música eletrónica, mas mantendo sempre o fio condutor do género que ajudaram a definir o electropop, mais concretamente electroclash e também sythcore.
E perdoem um parêntesis mais ou menos longo para dissertar um pouco sobre o electroclash, que praticamente desapareceu nos dias de hoje.
Meio punk meio eletrónico, irreverente, Ladytron vai beber a essa origem neste Paradises, o mais recente trabalho de estúdio, onde desde o primeiro momento sentimos o pulsar da pista de dança. Com grande explosão no início dos anos 2000, com nomes associados a Miss Kittin, Peaches ou Fischerspooner, misturava electro, new wave, atitude punk e estética retro-futurista, ligado à cena clubbing com ironia urbana. Muito dependente do seu contexto, foi um hype que surgiu no momento e cuja fórmula foi ouvida até à exaustão, apropriada pela publicidade e que acabou por se esgotar. Aconteceu mais ou menos o mesmo com o sub-género synthcore, popularizado sobretudo por Kavinzky no filme Drive, ligado à nostalgia dos anos 80, que sofreu de excesso de repetição e também acabou por perder o fulgor.
Onde ficam, então, estas bandas que se inspiraram nesta sonoridade e estética? Muitas desapareceram, mas Ladytron soube misturar esta inspiração original de folclore búlgaro (emprestado das origens de um dos membros do grupo) Krafwerk e Roxy Music com pop, alimentado pela nostalgia dos anos 70 e esta estética retro-futurista dos livros e filmes de ficção científica da época, como The Andromeda Strain, uma referência assumida. E nunca foi, unicamente, electroclash. Foram sempre evoluindo, adaptando e modernizando a sua sonoridade e continuaram a ser relevantes para quem gosta deste tipo de som, aproximando-se mais do dream pop eletrónico e também para um registo experimental. Não é por acaso que já temos vários discos ouvidos e escritos no Altamont!
E regressamos então ao que aqui nos traz hoje: Paradises. Este é um disco longo, de 16 faixas e mais de uma hora mas que vale a pena escutar com atenção do início ao fim. Desde logo com “I Believe in You”, a estabelecer o tom do disco: sintetizadores densos, batida firme e aquela voz etérea, quase alienígena, que continua a ser a assinatura do grupo. É uma faixa cheia de energia e que marca bem o ritmo dançante que vamos sentir em todo o disco.
Desde o primeiro disco, Witching Hour (2005), com a excelente “Destroy Everything you Touch” que Ladytron se assumiu como uma referência das pistas de dança alternativas. Em 2019, lançaram um disco homónimo onde se sentia, sobretudo, uma energia furiosa. No último disco, Time’s Arrow (2023), sentíamos um som mais leve e atmosférico, mas aqui voltamos ao estilo habitual, denso e bem produzido.
Faixas como a excelente e muito dançável “I See Red” marcam o piscar de olho à pista de dança. “Death in London” explora a voz como textura, entre sintetizadores bem estruturados, criando uma tensão subtil. Já “We Wrote Our Names in the Dust” aproxima-se de uma estética quase divertida, com ecos de electrónica oitocentista e uma cadência que remete para videojogos dos anos 80, sem nunca cair na nostalgia fácil.
Há também momentos de maior leveza, como “Ordinary Love” ou “Evergreen”, que se constrói sobre ritmos frágeis e cintilantes. No extremo oposto, “Solid Light” e “Heatwaves” são mais pesadas, quase cinematográficas, enquadrando-se perfeitamente no alinhamento do disco.
A fechar, “For a Life in London”, merece destaque: uma peça mais falada do que cantada, com um saxofone discreto que sublinha o tom de spoken word.
Efetivamente, Paradises funciona melhor como experiência contínua do que como coleção de singles. Existem algumas faixas com um excelente potencial para serem êxitos na pista, mas a experiência é mais envolvente quando nos afundamos, durante a duração do disco, nas diferentes camadas que ele nos propõe.
Ainda assim, a duração do disco joga contra ele há momentos em que a repetição de fórmulas rítmicas se torna aborrecido, quase hipnótico, retirando força de algumas faixas.
Não sendo uma revolução na discografia de Ladytron, Paradises é um regresso ao universo mais terreno, menos etéreo e espacial, um reencontro com a pista de dança, mas sem perder o distanciamento e introspeção que sempre definiu este projeto.