Num Capitólio completamente esgotado, a co-fundadora de Sonic Youth apresentou o álbum The Collective, prova de vida e de vitalidade deste ano. Dizem que tem 71 anos – mas deve ser bruxaria.
A história escreve-se por linhas tortas, labirínticas até. A icónica potência feminina dos Sonic Youth, que viu a banda desmantelada após a separação com Thurston Moore, trouxe ao Capitólio o segundo álbum em nome próprio. Depois de uma aventura (convenhamos) não bem sucedida do projecto Body/Head, dupla de guitarras com Bill Nace – que infelizmente via sempre o seu público a desistir do concerto apesar do estatuto incontornável desta figura do rock alternativo – traçou um novo caminho, menos inóspito e mais engajante.
A estranheza que nos consome ao experienciar uma nova Kim Gordon, perfeitamente adaptada aos novos tempos e possibilidades, em The Collective, deixa dúvidas sobre a potencial perda de essência. Ao vivo, porém, aniquilam-se quaisquer dúbias conjecturas. No Capitólio, a voz que achávamos perdida algures nos novos meandros do trap, leva-nos imediatamente para Goo ou Washing Machine, fiel e autêntica, mas com todo um novo universo a fazê-la vingar. A sonoridade electrónica, que poderíamos pensar fazer-se valer por uma mesa de mistura, é concretizada por instrumentos que a tornam palpável e concreta. A metamorfose não se faz só com borboletas e as asas que crescem têm espinhos e garras afiadas.
A abrir o concerto, “Bye Bye”. Ser do contra não parece mais do que a escolha acertada. Batidas jovens e hipnotizantes, à beira de um colapso nervoso e à procura de uma saída. Mas este rio só poderia desembocar numa setlist pronta a emancipar uma nova Kim, inadvertida e eternamente jovem, na sua merecida posição de mulher motherfucker do rock. No entanto, porque não ser ainda mais? Por exemplo, aquilo que bem lhe apetecer? Seguindo o próprio alinhamento do disco, rasgou pista e chicoteou os presos ao passado, fincando o peso que a vida traz em formatos electrónicos densos, jamais distanciados das origens sujas do noise.
Honrando o seu cardápio, não poderia deixar de mergulhar no primeiro parto a solo. No Home Record, orgulhosamente coerente e magnetizante, esteve também presente ao longo do concerto, bem representado por “Cookie Butter”, “Hungry Baby” e “Airb BnB” (tivéssemos nós pouco a dizer sobre isso…). Mas o último álbum não pôde largar o pódio; e não por contexto, mas sim por mérito. E “I’m A Man” não consegue distanciar-se da conotação de malhão do álbum e do concerto (apesar dos inúmeros concorrentes de alto gabarito). Para terminar, “Grass Jeans”, um single que não passou para disco, mas sim para palco. O fim de uma jornada a voltar aos confins do começo: guitarras, distorção e sabor nostálgico ao passado, que se faz orgulhosamente no presente.
Das memórias, guardamos a voz, a pica e o estilo. A juventude, conservada como pickle, de casaco e calção preto, lembra-nos de como somos nós que ditamos o fim e fazemos render o que temos agora. Kim Gordon tem consigo uma grande banda, uma eterna vontade e uma voz que nunca sairá daqueles discos que temos e que nunca abandonarão as suas caixas, já partidas com os CDs riscados. Podemos não ter Sonic Youth, mas seria egoísta e até imprudente pedir o passado de volta. E não minto quando digo que podemos ser muito felizes com a Kim Gordon do presente. Tomara às muitas bandas que sucumbem aos difíceis segundos discos, e aos que dizem adeus a partir do terceiro, saber como se constrói uma eternidade. Sem nunca, nunca deixar de fazer melhor. Quem dera o mundo seguir este exemplo.
Fotografias: Francisco Fidalgo










