Um disco que nos sacia mas que mostra uma banda numa encruzilhada estética. Será que a fórmula chegou ao fim?
Os Khruangbin andam por aí há perto de dez anos, com um buzz que foi crescendo progressivamente e que terá tido no disco anterior, Mordechai, e nos EP em parceria com Leon Bridges os pontos mais altos em termos de popularidade. Aquilo que nasceu como um despretensioso trio de músicos de Houston, com um amor pelo funk e pela música do mundo em comum, tornou-se um fenómeno “indie”, que os tem levado a correr mundo em nome próprio e no alinhamento de festivais um pouco por todo o lado (como no NOS Alive, na última edição).
Depois de Mordechai houve ainda tempo para Ali, disco em parceria com Vieux Farka Touré e ainda o primeiro disco ao vivo. Agora, em 2024, chega A La Sala, que traz algumas subtis mudanças face ao que vem de trás mas que acaba por cimentar a identidade bem vincada do grupo, composto por Laura Lee (baixo e voz), Mark Speer (guitarra e voz) e Donald “DJ” Johnson (bateria, voz e teclados).
Aquilo que temos em A La Sala é, desde o primeiro momento de som, indubitavelmente os Khruangbin em território habitual. Está aqui o ambiente fumarento, o som absolutamente complementar e contido dos três músicos, que se completam na perfeição. E, claro, temos o funk (sobretudo no baixo dominante e idiossincrático de Lee), as cordas subtis e planantes, vocais esparsos e etéreos e o jogo de guitarra que tanto nos leva à América Latina como aos tuaregs ou à Ásia.
Face a registos anteriores, sobretudo o imeadiatamente antes, o que se nota é um maior espaço deixado livre, valendo tanto o que não se toca como aquilo que se ouve. Sendo uma banda primordialmente instrumental, também em A La Sala há menos vocais do que em Mordechai. No geral, é um disco mais subtil, mais discreto e menos “espalhafatoso”.
Mantém todos os predicados da banda: a música perfeita para sunsets infindáveis, de copo na mão, enquanto nos sentimos fixes por gostar deste grupo de nome complicado. E talves seja esse o único problema de A La Sala: o simples segredo que estes três miúdos criaram numa pequena sala no Texas, sem grandes pretensões, tornou-se banda sonora de um Starbucks em qualquer cidade do mundo e combustível para drinks em terraços mais ou menos fashion. E, pelo caminho, gerou uma horda de imitadores, diga-se,
A La Sala é um disco bonito e sedutor, sem dúvida. Mas é também apenas mais um disco de Khruangbin, a banda mais cool do indie que parece estar a confrontar-se com as limitações das próprias regras que criaram.
Deixemos. no entanto, estas considerações de parte. Vou ali servir-me de mais um copo, a caminho de um Verão infinito. Banda sonora já tenho.