É comum dizer-se que a música transforma as pessoas, mas não é nada normal que as transforme radicalmente. Do disco para o palco, a diferença é um abismo sem retorno possível.
A expectativa era imensa e indisfarçável. Um nervoso miudinho, ao mesmo tempo simpático e confrangedor, espraiava-se de forma evidente em mim, aparentemente sem razão plausível. Afinal, era só mais um concerto, certo? Errado! Assistir, pela primeira vez, a um espetáculo de John Maus borbulhava-me na pele há já algum tempo. Os dias iam passando e crescia a ansiedade. Mesmo sabendo que seria um concerto memorável (parece que são sempre assim, pela entrega, pelo ambiente em palco, pela adrenalina, pela intensidade, pelo suor), há sempre a hipótese de, afinal, poder ficar aquém do desejado. Fui fazendo figas imaginárias ao longo da semana, e precavendo-me também, ouvindo mais uma vez o último Later Than You Think, mas também o maravilhoso disco de 2017, Screen Memories. Há que preparar as coisas, antecipando-as quanto baste, para que não sejamos apanhados de surpresa. No entanto, é de John Maus que falamos, o que pode tornar tudo imprevisível. Enfim, havia apenas de esperar, sentindo o impaciente tic-tac dos dias e das horas.
Maximilian Tanner fez a primeira parte do concerto. Um ilustre desconhecido para todos, suponho. Sozinho em palco, usando apenas a voz como instrumento. E a dança também. Muito se abanou, o homem que veio da “sunny London”, como ele próprio descreveu a sua proveniência. Foi óbvia, a ironia. Foi a sua primeira vez em Portugal. Atrás dele, numa ampla mesa, um Mac debitava som. A música soava a bandas dos 80 e 90. Eletrónica dançável em formato canção. Meia sala do Capitólio ouviu-o a abanou francamente as pernas e a cabeça. Entrega máxima, disso ninguém se queixará. Até palmas houve, quando teve de voltar ao início de um tema, por problemas do computador de serviço. Engasgou-se e parou. Recuperou depressa e voltou à carga. Maximilian Tanner também. O público sossegou-o e mostrou camaradagem. Ao longe, e de repente, parece uma mistura de John Maus (pois) e Ian Curtis. A referência é fisionómica, e não musical. Quanto à música, por vezes, fez lembrar uma banda dos anos 80, os Bronski Beat, embora Tanner se apresente mais contido, não tão histriónico. Na pausa entre dois temas, foi avisando para nos prepararmos para o homem da noite, afirmando “He’s on fire these days. Unbelievable!” Subiu mais um pouco a ansiedade, depois do que foi dito.
Eram 22 horas quando começou o desassossego. Como é possível um homem em palco aguentar a pedalada a que ontem assistiram todos os que quase encheram o Capitólio? Como é possível um homem transformar-se de forma tão drástica, quando sobe ao palco. Até Robert Louis Stevenson se espantaria. Ao segundo tema, a canção mais forte do último álbum, “Because We Build It”. O que este punk académico da eletrónica faz em palco é sedutoramente bizarro. As aulas de aeróbica de Jane Fonda dos anos 80 parecem risíveis e para meninos. Que desgaste! Até o público perdeu peso, só de o ver atuar. As canções foram desfilando, quase sem percebermos que mudam, de facto. O registo, como se sabe, não é de grandes contrastes, e por isso tudo foi parecendo um longo mantra a transbordar de adrenalina. Libertou suor por todos os lados. Quem esteve na primeira fila, molhou-se. Não se importaram. Talvez se julgassem abençoados por este guru de um culto tão estranho, quanto apetecível. Aos poucos, muitos o seguiram, imitando os trejeitos em palco. Simbiose mais que perfeita. Talvez já ninguém soubesse verdadeiramente o que estavam a ver e a ouvir. A experiência entranhou-se, sem se estranhar assim tanto, afinal. “Rights for Gays” levou alguma gente a gritar mais alto do que John Maus. Entre air-fight, socos na própria cabeça e peito, fomos assistindo a um concerto quase sem interrupções. Instrumentais gravados, vozes sobrepostas (gravadas e ao vivo), uma autêntica festa punk sem guitarras. Com “Bennington”, novo momento de ainda maior loucura. “I love those fucking eyes / And I still love the girl”! Não houve quem não cantasse esses versos, assim como “I Hate Antichrist”. Mas terá sido com “I Wait Til Next Year” que a tareia foi maior. John Maus ganhou-nos por KO. Amanhã, ninguém se conseguirá levantar. Ainda houve tempo, antes do encore, de se ouvir “Cop Killer”, arrebatadora e implacável. Já estávamos todos no chão, mas o som continuava a sovar-nos sem dó nem piedade. A violência desta Later Than Tou Think Tour é inenarrável. Ainda bem.
O concerto de John Maus acabou com “Believer”. Lisboa deve ter sentido alguma atividade sísmica, ontem à noite.
Fotografias: Gonçalo Nogueira
















“até o público perdeu peso”