Este disco de estreia é excentricidade, teatralidade e um pequeno espectáculo criado dentro de cada música. Pode o exagero ser demasiado?
Num panorama pop cada vez mais polido e previsível, a estreia dos Haute & Freddy surge como um gesto deliberadamente excessivo. Big Disgrace não procura subtileza, procura espetáculo, e com estrondo.
Haute & Freddy são Michelle Buzz e Lance Shipp, dois criadores que vieram de backgrounds complementares: Michelle, com formação em teatro e performance visual, traz para o duo uma sensibilidade dramatúrgica que se reflete na encenação de cada música, enquanto Lance, com experiência em produção eletrónica e design sonoro, garante que o exagero nunca se perca em caos, mantendo uma base pop sólida. Juntos, construíram um universo que cruza synthpop oitentista com imaginário barroco e estética de feira decadente. Cada música é um pequeno espetáculo e essa teatralidade infiltra-se na própria música, que oscila entre o melodrama e a catarse dançável.
Logo na abertura, “Symphony For A Queen” funciona quase como uma peça de teatro musical, grandiosa e excessiva, e talvez o momento mais divisivo do disco, com a sua intenção clara de construção e crescendo, que pode afastar quem procura uma entrada mais imediata. “Anti-Superstar” corrige o rumo, levando o álbum para uma pop mais reconhecível, ainda que filtrada por uma estética barroca assumida. É neste equilíbrio entre acessibilidade e exagero que Big Disgrace encontra a sua força.
No coração do disco, faixas como “Dance The Pain Away” condensam bem a proposta do duo: batidas pulsantes, synths luminosos e produção sólida. A própria banda descreve a canção como um espaço de fuga, um momento em que o caos da vida se perde na pista de dança.
Já “Shy Girl” e “Freaks” exploram a dimensão identitária do projeto, celebrando a estranheza e o outsider, remetendo tanto para o legado de Lady Gaga como para a tradição mais antiga de pop teatral de Kate Bush (juro que parece mesmo a própria Kate a cantar ali em determinado momento de “Femme Hysteria).
Já “Fashion Over Function” assume-se quase como manifesto: repetitiva, insistente, construída em torno de um slogan que resume toda a lógica do disco: a forma acima da utilidade, o artifício como verdade.
Musicalmente, Big Disgrace vai beber profundamente ao synthpop dos anos 80, com ecos de Pet Shop Boys ou até os New Order mais mainstream, mas mais exagerados, contemporâneos e com uma estética muito própria. Encontramo-nos também entre o synthpop mais polido dos CHVRCHES e remetendo a Supernature dos Goldfrapp. E os ecos de Kate Bush, tão de regresso à moda, também lá estão.
Há momentos em que essa abordagem resulta em algo muito interessante, como “Showgirl At Heart” ou “Sophie”, que demonstram uma capacidade rara para agarrar imediatos sem perder personalidade.
Um dos maiores trunfos de Big Disgrace, a sua consistência e tendência para o exagero, pode também ser a sua limitação. Temos muitas canções com ambição de single, tornando o disco muito semelhante, sem grande narrativa, repetindo fórmula, sem praticamente nenhuma faixa se destacar pela diferença. Ainda assim, essa abordagem tem um efeito imediato: raramente há momentos mortos.
No fim, Big Disgrace é um disco de estreia invulgarmente confiante, não só pela qualidade das canções, mas pela clareza da visão estética.
Num momento em que o electropop se diluiu no mainstream, os Haute & Freddy optam por fazer o oposto: exageram-no, quase como uma catarse, juntam-lhe o pop barroco que as The Last Dinner Party voltaram a trazer para os nossos ouvidos, dão uns pozinhos de fórmula dançável segura e acrescentam teatralidade. Esta hiperbolização leva a que o disco pareça demasiado excêntrico de propósito, sendo quase uma autoparódia.
Ou será falta de noção? Ficamos sem saber, mas o que sabemos é que este é um disco divertido, altamente dançável, com várias camadas, uma boa amostra de pop maximalista, ou artpop ambiciosa.