Uma celebração de 25 anos sem direito a velas, pela simples razão de que não há fogo que sobre depois dos Green Milk From The Planet Orange saírem do palco.
Se eu não meter a carroça à frente da Zé dos Bois e pensar naquele espaço intimista, apertado, e com um ar condicionado que já me pingou em cima, apenas como um espaço para ver concertos (com o tal ar condicionado que já me pingou em cima), então coloco-o bem lá no topo de sítios preferidos para ver bandas inesperadas e capazes de me fazer questionar a minha própria identidade no dia seguinte. Não que não a questione regularmente, mas há qualquer coisa de especial a burbulhar naquele Aquário. Nele, já me afoguei em vários dos melhores massacres sónicos dos quais fui testemunha como Pile, Ecstatic Vision, Acid Mothers Temple e, agora, os conterrâneos destes últimos – os Green Milk From The Planet Orange!
Antes de passar para terras nipónicas, devo mencionar e invejar toda a onda e verdadeiro sentido de estilo dos Ficus – o nome que aparentemente se dá a uma mão cheia de talentos capazes de nos pescar para fora do Aquário para onde lhes dê na real gana durante um período de tempo (infelizmente) curto. São aquela excelente surpresa de abertura tão boa que nos põe a duvidar “esperem, isto vai ser melhor do que os cabeças de cartaz?”. Depois do alinhamento e a cabeça resfriar, tais comparações parvas saem pela cortina fora e vão beber um shot ao Arroz Doce ou ao Esteves, algures pelo bairro. Bem sei que é uma mão cheia de nada para os descrever, mas o que posso eu dizer em minha defesa se não consegui ver o concerto por ter sido transportado para outro lugar?
Como se isso não bastasse, logo a seguir, os Green Milk From The Planet Orange chegam a roupa ao pelo a qualquer banda que se diga pesada e que já tenha pisado aquele palco. São aquela mistura fina de bom gosto e identidade musical carregada de influências mistas que se destaca de qualquer outra cavalgada de cordas elétricas. Não entram no ouvido de quem ande só à procura de uma “boa malha”(embora o possam fazer), mas brincam com vários novelos psicadélicos e influências variadas como os gatinhos adoráveis de Tóquio que são. Perdão, talvez me tenha esticado em comparações felinas, porque esta malta vem com garra para conquistar Portugal visto que já deixaram marcas em Aveiro, Cartaxo e Porto. Depois de uma celebração intensa de 20 anos nesta nova visita a Lisboa, aposto que arrumaram as tralhas cheias de distorção e foram fazer o mesmo para Fafe.
Por muito que toquem e por muito onde toquem, são mais do que qualquer género que lhes possam atirar aos pés. Sim, fiquem tentados a fazê-lo, mas garanto que qualquer um dos membros da banda não se levantaria das suas cadeiras para os apanhar. Não mencionei que tocam sentados? Pois bem, talvez seja só um presságio do que o público precisa depois de os ver. Com Dead K na guitarra e nas vozes, Damo no baixo e um baterista que se chama A mas que toca o alfabeto todo e mais algum, Green Milk From The Planet Orange é mais uma banda que o próprio Japão já deve estar farto de exportar, não fosse esta a quinquagésima prova ao quadrado de que lá se faz barulho como não se faz em qualquer outro canto deste planeta. Seja ele azul ou laranja.
Fotografias: Tiago Laranjo















